O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR, VIVARIUM e ABREM. Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

terça-feira, 27 de dezembro de 2016

LANÇAMENTO - FÉ NÓRDICA: MITO E RELIGIÃO NA ESCANDINÁVIA MEDIEVAL

 
 
A Editora da UFPB acaba de publicar o livro Fé Nórdica: mito e religião na Escandinávia Medieval, de autoria do professor Johnni Langer. Trata-se de uma coletânea de alguns de seus ensaios sobre o tema da religiosidade nórdica pré-cristã, especialmente envolvendo estudos sobre mitos celestes. O livro pode ser adquirido em contato com a editora, através dos e-mails: atendimento.editora.ufpb@gmail.com e editora@ufpb.br ou através do site da Editora e página do Facebook
 
 
 
 
 
 
 

quinta-feira, 22 de dezembro de 2016

Jól: o solstício de inverno nórdico


 
JÓL (Verbete do Dicionário de Mitologia Nórdica)

Festival pagão comemorado durante o solstício de inverno na Escandinávia. Segundo Rudolf Simek, a coincidência temporal do festival fez com que os nomes para o mês de dezembro e janeiro fossem semelhantes: fruma jiuleis (gótico do século IV; giuli, anglo-saxão do século VIII) e também semelhantes ao nórdico antigo ýlir (em dinamarquês e em nórdico antigo jól; em sueco jul; em anglo-saxão geohol).

Para Régis Boyer os ritos cerimoniais envolvem a imolação de animais engordados para esse fim, oferecidos para as divindades da fertilidade-fecundidade, as dises ou aos elfos. O Jól nesse sentido também é denominado dísablot ou álfablót. O rito durava treze dias e era de importância fundamental para as regiões nórdicas durante o inverno – particularmente rude e longo, onde a vida deveria ser simbolicamente renovada. O Jól foi recuperado pelo cristianismo e substituído por Noël. A árvore de natal contemporânea remonta ao julgran nórdico (sueco: pinheiro do jul; norueguês: juletre), cuja origem seria a arvore cósmica de Yggdrasill, símbolo da vida e da fecundidade. Na tradição natalina, os bodes remeteriam a Thor, a árvore a Odin, o varrão a Freyr. James Frazer pontuou a celebrações envolvendo o sacrifício do varrão durante o solstício. Ainda segundo Boyer, outras reminiscências sugerem que o Jól foi uma grande festa sacrificial dos mortos ou do clã: teria sido o momento da passagem da horda selvagem de Odin. O banquete que tradicionalmente se executa nesta ocasião era destinado a criar laços entre os vivos e os mortos. Também neste momento seria celebrado o célebre til árs ok fridar (para um ano fecundo e para a paz, segundo o Gulathingslog 7), que fazia parte das prerrogativas do rei nórdico.
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Para o referencial de Rudolf Simek, o festival de Jól era essencialmente religioso e com um caráter de sacrifício para a fertilidade. Mas também Odin seria associado com o Jól, tendo o epíteto de Jólnir. Ainda segundo este pesquisador alemão, a associação entre culto aos mortos e veneração aos ancestrais durante o Jól é incerta, talvez provinda de sacrifícios do inverno durante a Idade do Bronze europeia.

As fontes islandesas cristãs descrevem o Yule pagão no referencial das celebrações cristãs que eles conheciam. Especialmente nas sagas, o Jól seria uma época para a atividade dos draugar. O draugr é um morto vivo que adquire vida após ter sido enterrado em um monte funerário e é um tema comum nas sagas islandesas (Eyrbyggja saga 63; Grettis saga 35). Para se conseguir sua morte definitiva, seria necessário o corte de sua cabeça e a queima do corpo. Por outro lado, as conexões com a caçada selvagem de Odin são relatadas no folclore. E o fato da bebedeira de Jól ser sinônimo para a celebração da festa, demonstra sua ligação com o antigo beber sacrificial. Em Snorri Sturluson o festival pagão é entendido completamente como o sacrifício de solstício de inverno, que contém a festa comunal. De outro lado, algumas fontes nórdicas não generalizam o Jól como uma festa comunal (e é neste referencial que Thomas DuBois o descreve, como um ritual limitado a certa família e alguns membros selecionados, presidido por uma mulher).

Terry Gunnel aponta a relação entre a palavra leikr (dramatização, ritual, jogos) com a época do Jól e em especial, com um ritual dedicado ao deus Freyr (Freys leikr, que também é um kenning para batalha na Ragnar saga Loðbrókar). Se de um lado temos o deus Freyr conectado à fertilidade e a guerra, o termo leikr também pode ser aplicado ao ritual, a atividade dramática e a jogos de crianças. Durante o Jól acontecem vários tipos de jogos (incluindo a glíma e o knattleir). James Frazer ainda recorda as celebrações envolvendo grandes festivais do fogo durante o Jól, sobrevivendo até os tempos modernos.

Johnni Langer

Ver também: Álfablót; Berserkir; Blót; Caçada selvagem; Paganismo nórdico.

Referências Bibliográficas:

BOYER, Régis. Jól: solstice d'hiver au grand Nord. Louvain 64, 1995, pp. 27-30.

FRAZER, James. The midwinter fire. The golden bough. New York: Dover, 2002, pp. 461-462, 636.

GUNNELL, Terry. Ritual leikar and drama. The Origins of Drama in Scandinavia. Cambridge: D. S. Brewer, 1995, pp. 24-36.

SIMEK, Rudolf. Yule. Dictionary of Northern Mythology. London: D.S. Brewer, 2007, pp. 379-380.

 
FONTE: DICIONÁRIO DE MITOLOGIA NÓRDICA: SÍMBOLOS, MITOS E RITOS. SÃO PAULO: HEDRA, 2015.
 
 

sábado, 17 de dezembro de 2016

V COLÓQUIO DE ESTUDOS VIKINGS, 3-6/10/2017


Já estão abertas as inscrições para ouvintes (gratuitas) e comunicações orais (25,00) no V Colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos (CEVE), a ser realizado na UFPB de 3 a 6 de outubro de 2017. A programação do evento também já está disponível, contando com pesquisadores de várias regiões do Brasil para analisar o simbolismo animal na Escandinávia, medievo e religiosidades em geral.

O evento pode ser acessado clicando aqui.









segunda-feira, 12 de dezembro de 2016

Bibliografia para a seleção de 2017 do PPGCR da UFPB

 
Está disponível a bibliografia para a seleção de Mestrado e Doutorado em Ciências das Religiões da UFPB. O edital da seleção será publicado no início de 2017. É uma oportunidade única para os interessados em desenvolver projeto de pesquisa em religiosidade nórdica medieval, mitologia nórdica, história da magia na Escandinávia e mitologia comparada.
 
O edital da bibliografia se encontra aqui.
 
 

sábado, 10 de dezembro de 2016

Mariano Campo: novo colaborador estrangeiro do NEVE


 
Mariano González Campo no monumento Sverd i fjell em Stavanger, Noruega.
 


Mariano González Campo é o mais recente colaborador estrangeiro do NEVE, registrado no diretório de grupos do CNPQ. Nascido em Murcia (Espanha). É um dos mais produtivos pesquisadores de temas nórdicos medievais em língua hispânica, licenciado em filosofia pela Universidade de Murcia, bacharel em filologia islandesa pela Universidade da Islândia e Doutor em tradução e interpretação pela Universidade de Valladolid com a tese Literaturay ficción en la Islandia tardomedieval: Estudio comparativo de dos versiones dela Blómstrvallasaga según los manuscritos AM 522 4º y AM 523 4º y edición bilingüe (islandés-castellano) con traducción desde una perspectiva antropológico literária.
 
O pesquisador é o organizador de um blog dedicado à cultura nórdica em espanhol, El Cuaderno del Feroés. e uma página do facebook: Skandiberia
Além das traduções das sagas ao espanhol, Mariano Gonzaléz Campo dedica-se ao estudo das riddarasögur, literatura arturiana nórdica e a comparação entre literatura hispânica medieval e nórdica. Publicou na revista Hermeneus n. 12, 2010 o estudo Bibliographia normanno-arturica, textos y estúdios sobre la traducción y adaptación de la literatura artúrica en la escandinavia medieval.
  
 Mariano Campo em Hali, Islândia.

Principais livros publicados:

- Baladas épicas feroesas (Antología bilingüe con CD), Miraguano, Madrid, 2008.

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- Saga de Teodorico de Verona, La Esfera de los Libros, Madrid, 2010.

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- Historia de Campo Florido. Blómstrvalla saga, trad. M. González Campo. Disbabelia, Universidad de Valladolid, Valladolid, 2010.
HISTORIA DE CAMPO FLORIDO (BLÓMSTRVALLA SAGA)
- Historia de los gotlandeses (Guta saga), trad. M. González Campo, IPOC Italian, Milán, 2008.
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- Saga de Bósi, trad. M. González Campo, Miraguano Ediciones, Madrid, 2014.
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- Saga de Hervör, trad. M. González Campo, Miraguano Ediciones, Madrid, 2003.
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- Saga de los feroeses, trad. M. González Campo, Miraguano Ediciones, Madrid, 2008.
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- Sagas artúricas, trad. M. González Campo, Alianza Editorial, Madrid, 2011.
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 - Saga de Óláfr El Tranquilo - Mariano González Campo, Dossiê: Sagas islandesas, revista Brathair 9(1), 2009. Disponívelaqui.
- Diccionario feroés-español/Føroysk-sponsk orðabók. Editorial Sprotin, 2016.
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- Gramática Básica de Noruego Integral. Editum, 2012.


 
 

domingo, 4 de dezembro de 2016

Artigo analisa o simbolismo dos bodes de Thor

 
A mais recente edição do periódico acadêmico Diversidade Religiosa traz um artigo sobre o simbolismo dos animais associados ao mais famoso deus nórdico: Thor, o Senhor dos Bodes: um estudo de simbologia animal, escrito por Leandro Vilar Oliveira, doutorando em Ciências das Religiões pela UFPB e membro do NEVE.
 
Resumo: Entre alguns dos epítetos que o deus Thor recebia, estava o de ser o “Senhor dos Bodes”. Os mitos contam que o deus do trovão viajava pelo céu numa carroça puxada por dois bodes. Os mitos narram que outras divindades nórdicas também estavam relacionadas a animais, os quais possuíam um papel importante não apenas na mitologia, mas também na religião e costumes daquela sociedade. A proposta desse artigo foi analisar por quais motivos o deus Thor tinha como animais simbólicos os bodes. Quais características tornavam estes animais dignos de representarem valores simbólicos do deus do trovão nórdico? Para isso, realizou-se um estudo de mitologia e de simbologia, a fim de identificar elementos tanto o âmbito escandinavo como também de outras tradições mitológicas e religiosas, nas quais cabras e bodes estavam associados a trovões e raios.
 
O artigo está disponível clicando aqui.
 
 
 
 
 
 
 
 
 

sábado, 26 de novembro de 2016

Contos populares nórdicos são tema de mesa redonda em Recife


Pintura da coletânea Bland tomtar och troll, 1907, de autoria de John Bauer
 
 
MESA REDONDA: SOBRENATURAL E SAGRADO NOS CONTOS POPULARES ESCANDINAVOS
VII CONGRESSO DE LITERATURA FANTÁSTICA DE PERNAMBUCO, 2 de dezembro, 18h, UFPE

Maiores informações, clique aqui


PALESTRA 1: BEBIDA, MAGIA E MORTE: UMA ANÁLISE DO CONTO “O MOÇO E O BARRIL DE CERVEJA”

Profa. Ma. Luciana de Campos (PPGL-UFPB/NEVE)

As mais famosas narrativas folclóricas norueguesas foram recolhidos no século XIX por Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe – que passaram a ser conhecidos apenas como Asbjørnsen-Moe – e ganharam uma tradução brasileira em 2003, tornando-se assim, acessível aos leitores, pesquisadores e estudiosos em língua portuguesa. Nessa coletânea encontramos contos que retratam o cotidiano, as crenças dos populações que vivam isoladas em florestas na Noruega do século XIX e, assim conservavam vivas suas superstições e modos de vida que incluíam as fadas, os animais falantes, os trolls, bruxas más, anjos, o diabo e a própria Morte figuram como personagem dessas narrativas. É justamente a figura da Morte a personagem do conto “O moço e o barril de cerveja” que vai protagonizar uma narrativa interessante onde em um cenário de estradas que cortam florestas habitadas por mestres cervejeiros e seus hábeis e talentosos aprendizes que emissários divinos e diabólicos vão disputar com a Morte o privilégio de saciarem sua sede com uma deliciosa cerveja mágica. O desenrolar da trama vai apresentando como o moço, aprendiz cervejeiro consegue obter um barril de cerveja mágica – aqui a cerveja é descrita como uma bebida de sabor maravilhoso e é capaz de restaurar a saúde de quem estiver doente portanto, possuí poderes mágicos - o que proporciona ao jovem dono do barril riqueza e fama e, portanto seja muito procurado pelo ricos proprietários de terra, comerciantes e até reis para que esses se tornem sãos novamente. Mas ao proporcionar novamente a saúde a todos os que estão à beira da morte e, enriquecer com tal feito o moço enfurece a Morte que vai cobrar o seu preço. Essa narrativa de base oral e com elementos folclóricos noruegueses bem delineados nos apresenta alguns aspectos importantes presentes na literatura comumente denominada “contos populares” e “contos-de-fada”, como a presença de seres benignas e malignas que oferecem ao personagem principal riquezas ou então prazeres ilimitados em troca de pequenas tarefas mas em hipótese alguma essas entidades admitem ser enganadas e, caso isso aconteça haverá punição. Portanto a condição do herói está intimamente ligada a cumprir as regras impostas pelo ente mágico. Mas essa regra nem sempre é cumprida e o herói evidenciando seu caráter ingênuo acaba perdendo tudo o que conquistou. Mais do que simplesmente conhecer e difundir esses contos populares e de fadas noruegueses ainda desconhecidos do grande público brasileiro nos propomos a realizar uma análise do entrelaçamento entre os elementos folclóricos e fantásticos presentes na narrativa bem como os do cotidiano rural da Noruega representados pela comida e bebida que são fundamentais para que o sobrenatural possa se fazer presente na vida dos personagens.

 
 

PALESTRA 2: SOBRENATURAL E COSMOLOGIA NO CONTO NORUEGUÊS “O MOINHO QUE GIRA NO FUNDO DO MAR”.

Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)

Nosso intento é a análise do conto “Kvernen som står og maler på havsens bunn” (lit. “O moinho que gira no fundo do mar”), integrante da coletânea Norske Folkeeventyr (Contos populares noruegueses). Ela foi publicada em 1841 pelos pesquisadores Peter Christen Asbjørnsen e Jørgen Moe e é baseada em material folclórico escandinavo. A obra de Asbjørnsen e Moe, como é conhecida a dupla de pesquisadores, foi inspirada diretamente nas pesquisas dos irmãos Grimm, que além da metodologia alemã de pesquisa folclórica, também foram influenciados pelo nacionalismo norueguês do Oitocentos. O conto narra a estória de dois irmãos, um pobre e outro rico. O pobre foi pedir ao abastado irmão comida para o Natal. O irmão rico presenteia-o com presunto, mas ao mesmo tempo lhe remete ao inferno. Ele realmente vai para este local maldito e encontra o diabo, que lhe presenteia com um moinho mágico. Por lá ainda um ancião lhe ensina como utilizar o instrumento. No retorno, ele consegue obter muita comida com o moinho. O irmão mais rico compra o mesmo, mas não consegue controlar o aparelho, que é comprado novamente pelo antigo proprietário. Ele se torna muito abastado e com vasta propriedade. Com o tempo, vende o moinho para um capitão, que sem saber controlar o instrumento, afunda o seu navio e ele vai parar no fundo do mar. Como nunca parou de fazer sal, isso explicaria porque o mar é salgado. O conto pode ser analisado em vários níveis. O primeiro, remete às condições sociais do mundo rural na Escandinávia, pobre e com poucos recursos, onde o espectro da fome era vigente e o tema da comida é um viés que percorre todo o texto, dando ao mesmo tempo condições ao pesquisador de saber das práticas alimentares deste universo rural: Primeiro nível (Cotidiano alimentar): alimentos cotidianos da camada mais pobre do mundo rural: coalhada e pão; alimento diferenciado da camada mais pobre do mundo rural: presunto (“comida rara no inferno”); alimentação ideal para o Natal, maior festa comemorativa do mundo cristão: comida e cerveja; alimentação do irmão mais rico: mingau e arenque. Neste nível, o moinho é um instrumento mágico afim de se obter mais alimento, de forma semelhante a outros objetos mágicos dos contos populares e da fadas (como a mesa mágica nos irmãos Grimm:). Segundo nível: a obtenção do instrumento mágico. Vivendo num mundo onde as regras são do cristianismo (galhinhos em forma de cruz para colocar abaixo do mingau de Natal; sinal da cruz; doze badaladas da noite do Natal; três dias depois de obter o moinho o dono conta ao irmão a procedência do moinho – simbolismo da trindade), o fantástico só pode ser procedente de um outro mundo, no caso, do inferno – neste caso, a quebra da normalidade se dá por uma transgressão advinda fora da cristandade. Terceiro nível: transgressão e moralidade. O personagem que consegue o moinho (o irmão pobre) não é punido, ao contrário do irmão rico, que não consegue controlar o instrumento e acaba tendo que pagar um alto preço por ele. A pobreza é identificada como uma situação sócioeconômica onde os valores éticos e morais sobrevivem, apesar das dificuldades, mas sempre em conexão com o cristianismo. Neste nível, o moinho torna-se um objeto mágico que produz riquezas e ouro. Quarto nível: relação com o mito e a cosmologia antiga. O tema do moinho mágico estava presente na antiga mitologia escandinava, tanto na área finlandesa quanto nórdica, na figura do sampo, um moinho mágico (entre outras formas) que fabricava sal, ouro e grãos, como em outras mitologias, como na figura da cornucópia da área clássica. No Kalevala, o sampo é destruído caindo nas águas do mar. A etiologia do conto também é idêntica ao poema éddico Grottasöngr, onde um moinho afundado no mar explica porque este é salgado. Diversas pesquisas contemporâneas apontam que o tema do moinho mágico tem conexão com a cosmologia de um eixo vertical, invisível, sobrenatural e sagrado, ligando o céu ao mundo terrestre, em conexão com a estrela Polaris, visível de forma fixa em todo o Hemisfério Norte.

 

 PALESTRA 3: SINTO O CHEIRO DE CRISTÃO: A REPRESENTAÇÃO DOS TROLLS E O ESPAÇO SELVAGEM NOS CONTOS DE ASBJØRNSEN E MOE

Me. Pablo Gomes de Miranda (PPGCR-UFPB/NEVE)

O objetivo da nossa comunicação é analisar alguns contos de fadas retirados da antologia Contos Populares Noruegueses (Norske Folkeeventyr), coletados e adaptados por Peter Christe Asbjørnsen e Jørgen Engebretsen Moe. Os Contos Populares Noruegueses é uma antologia publicada pela primeira vez em 1841 e que teve como uma das razões de seu sucesso o favorável clima político fruto da parcial independência da Dinamarca, portanto uma obra que impulsionou o sentimento nacionalista do país. Asbjørnsen e Moe se inspiraram no trabalho dos irmãos Grimm, porém a dupla coletou os contos pessoalmente antes de adaptá-los para a publicação. Nesses contos, nós temos um interesse especial nas relações espaciais desenvolvidas pelo encontro entre os humanos (geralmente crianças perdidas) e os Trolls, personagens complexos e emblemáticos do folclore escandinavo: seres monstruosos, poderosos, donos de riquezas maravilhosas e um certo apetite para a carne de cristãos perdidos. Desde as suas primeiras descrições nas sagas e nos poemas medievais, os Trolls ocupam os ermos, as florestas, as montanhas, sendo ocasionalmente encontrados pelos homens que travam com eles disputas de conhecimentos gnômicos. Entre as suas diversas representações, os Trolls são geralmente detentores de segredos mágicos ligados ao submundo e ao mundo dos mortos, o que também os identificam com a figura da feiticeira (Trollkona) que vive foram das cidades, vilas e assentamento no mundo nórdico. Nos parece que de alguma forma tais representações firmaram raízes importantes no folclore e na cultura oral escandinava. Nos contos “O Garoto das Cinzas que do Troll Roubou os Patos de Prata” (Askeladden som stjal sølvendene til trollet) e “O Garoto das Cinzas que Teve uma Disputa de Comida com um Troll” (Askeladden som kappåt med trollet), o Garoto das Cinzas (Askeladden) precisa enganar um Troll com a finalidade de sobreviver ao encontro e obter, no fim, as riquezas anteriormente possuídas pela criatura. Em “Os Garotos que Encontraram os Trolls na Floresta de Hedale” (Småguttene som traff trollene på Hedalsskogen) os garotos que vagam pela floresta de Hedale encontram três gigantes Trolls e uma bruxa com quem conviviam, e conseguem enganá-los para conseguir ouro e prata. Talvez haja aqui questões espaciais interessantíssimas: 1) os garotos precisam se retirar do seio familiar, vagar até o ermo selvagem onde irão encontrar as criaturas fantásticas; 2) devem vencê-las utilizando para isso a sua esperteza, muitas vezes enganando as criaturas que são incapazes de vencer a astúcia dos jovens; 3) retornar ricos com os louros de suas vitórias. Essas questões inclusive são apresentadas a nós de maneira similar no conto “Os Três Cabritos Rudes” (De Tre Bukkene Bruse), da mesma antologia, onde os animais precisam atravessar uma ponte para se alimentar da grama fresca que cresce em um prado próximo, a ponte, porém, é guardada por um Troll que vive ali por perto e que quer devorá-los, o conto procede de maneira similar aos outros apontados anteriormente, com o monstro vencido e os cabritos obtendo a riqueza disposta naquele prado. Ficam nossos questionamentos: há origens históricas para tais construções? Quais as implicações para o desenvolvimento desses Trolls nas narrativas dos contos populares?

 

PALESTRA 4: INFANTICÍDIO E A CONSTRUÇÃO DO HORROR NO CONTO ISLANDÊS MÓÐIR MÍN Í KVÍ, KVÍ

Andressa Furlan Ferreira (PPGCR-UFPB/NEVE)

Nos mais diversos períodos históricos, o abandono infantil e o infanticídio fizeram-se presentes nas sociedades humanas. Tais práticas poderiam decorrer de crises de subsistência (a nível social ou familiar) e pressões socioculturais, no que concerne à rejeição diante de deformidade física do bebê ou da preferência pelo sexo masculino, entre outros fatores. Na Idade Média, os países escandinavos parecem ter enfrentado uma longa tradição social de abandono infantil, a qual, segundo Juha Pentikäinen (1990, p. 75), teria sido comum e relativamente aceitável até o advento da cristianização. A partir desta, por volta do ano 1000, o infanticídio foi gradualmente criminalizado nos países nórdicos embora a criminalização desse ato não fosse suficiente para impedi-lo de ocorrer. A frequência do abandono e do infanticídio pode ser depreendida de fontes literárias, como as sagas, além de leis provinciais da Noruega e da Islândia, que previam sanções frente a essas práticas. Outra fonte que contribui para os estudos relacionados ao tema, apesar de ainda pouco explorada, é o folclore. No folclore islandês, de acordo com os registros coletados por Jón Árnason (1862), os útburði referem-se a uma categoria de fantasmas de crianças que foram assassinadas por seus entes, especialmente seus pais. Árnason (1862, p. 224) especifica que o local onde os bebês foram deixados reproduzem sons terríveis, parecidos com uivos ou choros estridentes, que podem ser associados ao mau tempo. Além disso, o escritor discorre que os útburði podem permanecer próximos ao lugar onde foram deixados, assustando a quem por eles passa, ou podem assombrar as famílias que os abandonaram, causando insanidade aos responsáveis. A existência desse tipo de assombração no folclore islandês denota aspectos sociais que se relacionam com a tradição nórdica pré-cristã, referente à inserção do sobrenatural na vida cotidiana. Com o objetivo de abordar questões históricas e literárias em fontes folclóricas, este artigo propõe analisar o papel do útburður no conto “Móðir mín í kví, kví”, o qual também foi coletado por Árnason, a fim de analisar os elementos que compõem essa narrativa e verificar de que modo o horror foi construído nela. Além das obras já citadas, utilizaremos os trabalhos de Green (1997), Lawing (2013) e Guðmundudóttir (2016).