O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

segunda-feira, 30 de maio de 2016

GRUPO NEVE COMPLETA SEIS ANOS



Um momento particularmente importante nos estudos nórdicos brasileiros foi a criação em junho de 2010 do Núcleo de Estudos Vikings e Escandinavos (NEVE), um grupo acadêmico interinstitucional que abarca pesquisadores de diferentes estados e de áreas diferentes, mas essencialmente ligados ao campo da História e das Letras. Em 2012 o grupo NEVE promoveu duas importantes façanhas na área: a organização do primeiro evento dedicado exclusivamente ao estudo da Escandinávia Medieval e a criação de um periódico especializado no mesmo tema. 

O I Colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos, realizado na UFF em outubro de 2012, congregou os investigadores a repensarem seus temas e articulando-se nas possibilidades de avanço e maiores inserções na academia nacional. O boletim Notícias Asgardianas (ACESSE AQUI) teve o mérito de propagar ainda mais as novas pesquisas, os novos debates e a emergente geração de estudantes e pós-graduandos dedicados exclusivamente ao estudo da fé nórdica. Neste sentido, a edição número 9, com o dossiê Ritos e crenças  9 (ACESSE AQUI), levou ao público algumas das mais recentes metodologias de investigação, além das tradicionais, como a análise de fontes literárias e folclóricas. E também os estudos apresentaram temas como as mitologias astronômicas e a cultura material da religiosidade, sejam em suas variedades pré-cristãs (como os mitos) ou na emergente perspectiva do hibridismo cultural, aplicado ao período de transições religiosas na Escandinávia.
Outra edição do boletim Notícias Asgardianas (dossiê: Bruxaria e feitiçaria nórdica, edição 6, 2014, ACESSE AQUI), também foi um interessante espaço para um assunto muito popular nos nossos dias, mas que ainda merece muito pouca atenção dos acadêmicos: as crenças envolvendo as praticantes de magia da Escandinávia, cujas representações e discursos foram perpetuados tanto pelo discurso teológico e da Igreja, como nas manifestações artísticas, literárias e folclóricas do final do medievo. 

https://agbook.com.br/book/53308--Poder_e_Sociedade_na_Noruega_Medieval

Além de traduções de estudos estrangeiros, o dossiê contou com a participação de pesquisas brasileiras, enfatizando de um lado as concepções clericais (como: Diabolismo e Bruxaria na Escandinávia), quanto as manifestações populares sobre o tema (Mandrágora; Gatos e bruxaria nórdica). Percebe-se nitidamente que a maioria dos estudos deste dossiê estavam preocupados em debater as idéias culturalistas de Carlo Ginzburg sobre um modelo de feitiçaria com bases xamanistas euro-asiáticas, ao mesmo tempo que dialogaram com a obra do mais importante estudioso do tema na Escandinávia, o norte-americano Stephen Mitchell. 




Mas certamente o momento mais significativo da produção desta época foi a publicação do Dicionário de Mitologia Nórdica: símbolos, mitos e ritos (ACESSE AQUI), coordenado pelo grupo NEVE e que contou com a participação de 22 pesquisadores. Além do conteúdo temático, organizado em forma alfabética e contendo mais de 220 verbetes (num total de 581 páginas), a obra possui referências bibliográficas e conteúdos que apontam tanto para uma influência dos clássicos dos estudos nórdicos, como a sua crítica e as mais recentes inovações teóricas e metodológicas. Assim, percebemos Georges Dumézil sendo citado em alguns verbetes (como Balder; Ases e Vanes), mas também é criticado em outros (Tripartição no mundo nórdico); a fenomenologia, o simbolismo e o comparativismo clássico perpassam alguns verbetes (como Mitologia Nórdica), mas são igualmente questionados criticamente no verbete Arquétipos escandinavos. Essa pluralidade teórica apresenta-se de forma positiva aos leitores e pesquisadores iniciantes, porque demonstra tanto a existência de um constante debate, como o direcionar de novos caminhos reflexivos. Outra inovação da obra foi a inclusão de diversas fontes primárias, traduzidas diretamente das diversas linguagens medievais, a exemplo dos poemas éddicos Grímnismál e Rúnatal, o Encantamento das Nove ervas, a Oração de Wessobrunn, o Poema rúnico anglo-saxão, o poema Darraðarljóð e diversas inscrições rúnicas.




Mais recentemente, o grupo NEVE foi convidado a organizar um dossiê para a Revista Brasileira de História das Religiões, o que demonstra o avanço e a inserção desta área no atual panorama das investigações acadêmicas sobre religiões. A edição número 23 (Mito e Religiosidade Nórdica, ACESSE AQUI), publicada em outubro de 2015, traz algumas pesquisas de ponta sobre diversos temas em língua portuguesa, totalmente em consonância com a produção internacional. Percebemos um maior nível de amadurecimento das pesquisas, mas também detectamos que a área tem ainda inúmeras possibilidades de investigação e é um espaço importante para futuras gerações de pesquisadores do fenômeno religioso. Entre os destaques desta edição, o artigo do historiador Hélio Pires (Vaningi: O javali e a identidade dos Vanir), apresenta um original estudo sobre o simbolismo do javali entre os nórdicos pré-cristãos, ao mesmo tempo em que critica o estruturalismo dumeziliano e as abordagens envolvendo a tripartição na religiosidade germano-escandinava. O estudo constitui uma grande virada nas investigações teóricas sobre a natureza e as funções das divindades no mundo pré-cristão, mas também constitui um excelente modelo de interpretação das fontes primárias e do papel do historiador e do mitólogo.

Outro importante estudo de base teórica e metodológica é Discutindo o Xamanismo no Mito e na Literatura Escandinava: uma breve revisão historiográfica, dos historiadores Maria Emília Monteiro Porto (UFRN) e Pablo Gomes de Miranda (UFRN). Nele, os autores realizam uma sistematização dos debates conceituais sobre o fenômeno do xamanismo, especialmente aplicado para a área escandinava pré-cristã e na literatura medieval. Uma das principais críticas no artigo é sobre a natureza das práticas xamânicas nas fontes primárias e de sua inserção como conceito nas representações modernas.

Por sua vez Luciana de Campos apresenta a pesquisa A sacralidade que vem das taças: o uso de bebidas no Mito e na Literatura Nórdica Medieval, um tema pouco explorado em nosso país: a questão do uso de bebidas em rituais religiosos e sua inclusão nos mitos literários. Outros estudos, como os de André de Oliveira, Munir Ayoub, José Fernandes, Ricardo Menezes, Álvaro Bragança Júnior e Andressa Ferreira, também realizam excelentes contribuições, tanto com estudos de casos extremamente originais, quanto apontam novos referenciais de análise para o corpus de fontes medievais.




Também recentemente impresso, o novo livro do historiador Johnni Langer, Na trilha dos vikings: estudos de religiosidade nórdica (ACESSE AQUI), vem complementar o panorama mais atual de publicações. Trata-se de outra coletânea de artigos, desta vez referente ao período de 2006 a 2010, nos periódicos Signum, RBHR e Brathair. Langer apesar de dar continuidade aos estudos de mitologia nórdica (O mito do dragão), já apresenta outras inovações, como nos diversos estudos sobre as manifestações mágicas na sociedade escandinava (O galdr; O seidr), ou na investigação do processo de conversão ao cristianismo (Pagãos e cristãos). A maior parte destes estudos utilizou as sagas islandesas, ao mesmo tempo em que também percebemos uma maior influência de autores estrangeiros dedicados à perspectiva culturalista, da literatura oral e da religiosidade nórdica, aqui entendida como um processo extremamente dinâmico e sujeito a constantes variações temporais e geográficas. Entre os autores citados, destacamos Peter Schjødt, John Mckinell, Thomas Dubois e Lars Lönnroth.

O futuro das pesquisas no Brasil continua sendo muito promissor.


quinta-feira, 26 de maio de 2016

Chamada para dossiê: OS MITOS NÓRDICOS NAS ARTES (NA 11)


Chamada para dossiê: OS MITOS NÓRDICOS NAS ARTES (NA 11)

Data limite para envio das propostas: 30 de julho de 2016, ao e-mail: neveufpb@yahoo.com.br
 
Desde a Idade Média e o Renascimentos a Mitologia Nórdica vem constituindo um tema extremamente privilegiado pelos mais diversos artistas e movimentos artísticos do Ocidente. Passando pelo romantismo e artes plásticas em geral, pela ópera, cinema, literatura, quadrinhos, televisão, entre outras manifestações midiáticas e estéticas, os temas nórdicos são extremamente populares tanto no imaginário quanto no referencial artístico. O presente dossiê pretende realizar uma pequena contribuição neste campo ainda precário na academia brasileira: o estudo da relação entre imagem, narrativa, mito e arte, abrindo espaço para novas contribuições e problemáticas na investigação dos estudos nórdicos.

Normas para publicação, clique aqui. 
 
BOLETIM NOTÍCIAS ASGARDIANAS (ISSN: 1679-9313).


 

domingo, 22 de maio de 2016

DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS SOBRE OS "VIKINGS": ALIMENTAÇÃO



 DESCONSTRUINDO ESTEREÓTIPOS SOBRE OS "VIKINGS", PARTE I: ALIMENTAÇÃO

Um dos estereótipos mais populares sobre alimentação entre os nórdicos na Era Viking, extremamente
comum no cinema, TV, literatura e quadrinhos, envolve a imagem de que seriam carnívoros inveterados, alimentando-se somente de carne assada diariamente, especialmente javalis. Na realidade, a dieta cotidiana dos escandinavos na Alta Idade Média era muito mais complexa e diversificada do que o imaginário artístico apresenta. O seguinte artigo desvenda algumas destas facetas culinárias, CLIQUE AQUI PARA ACESSAR.


terça-feira, 17 de maio de 2016

NOVA TESE SOBRE O DEUS THOR




NOVA TESE SOBRE O DEUS THOR



              Prof. Dr. Johnni Langer |(PPGCR-UFPB/NEVE)



Thor é a deidade mais popular da Escandinávia pré-cristã, recebendo desde o século XIX as mais variadas análises e estudos, além de seu grande sucesso na arte e na cultura popular do Ocidente até nossos dias. Uma tese de doutorado vem agora implementar um novo fôlego aos que se dedicam ao estudo dos mitos envolvendo esse importante deus nórdico:  Understanding diversity in Old Norse religion taking Þórr as a case study, disponível aqui, defendida na Universidade de Aberdeen (Escócia) em 2015 por Declan Ciaran Taggart, sob orientação de Stefan Brink e Tarrin Wils.

A pesquisa possui uma farta documentação de fontes primárias e bibliografia analítica, concentrando seu foco na literatura medieval produzida sobre Thor, com o intuito de estudar as mudanças e estabilidades nas representações mitológicas. A metodologia adotada é a da Ciência Cognitiva da Religião, especialmente a Psicologia e estudos de memória, com o fim de se conhecer os fatores da transmissão oral ao conservar e adaptar contextos narrativos. O tema central da tese é a análise dos fenômenos do trovão e relâmpago associados com a divindade e neste sentido, a tese se aproxima de muitas pesquisas que vem resgatando o referencial naturalista na mitologia nórdica (Perkins, 2001). Claro que não se trata mais do naturalismo defendido pelos românticos oitocentistas, que procuravam explicar todos os relatos míticos pela simples observação da natureza. Aqui a relação com o ambiente natural é vista como dependente da interação social, cultural e histórica e não simplesmente como o seu produto. A própria figura de Thor torna-se um conceito sobrenatural flexível e não mais um mito dogmaticamente fechado em torno de conceitos prontos, tão populares nos manuais mais célebres do romantismo.

O autor dialoga essencialmente com diversos mitólogos do século XX (a exemplo de Jan de Vries, Turville-Petre, Hilda Davidson, 1964; Blinkengerg, 1911) e com produções mais recentes (como Bertell, 2003; Perkins, 2001; Motz, 1997; Lindow, 1994). Um dos primeiros pontos interessantes da tese é a opção pela continuidade do conceito-termo religião para o mundo pré-cristão, questionado por alguns acadêmicos (que entre 2006 e 2010 adotaram a expressão “costume antigo”, forn siðr). A partir da crítica ao emprego conceitual desta expressão contida nas fontes primárias (Lindberg, 2009, p. 114), a maioria dos trabalhos mais recentes vem empregando massivamente o termo Religião Nórdica Antiga. Aqui o autor também emprega o termo “nórdico antigo” para perspectivas culturais, religiosas e literárias do mundo escandinavo pré-cristão, enquanto que “islandês antigo” é empregado mais para questões linguísticas. Essa tendência também vem sendo adotada por escandinavistas ibéricos (Antón, 2014). Declan Taggart também concede continuidade aos polêmicos termos viking e Era Viking, mas em situações especificamente didáticas (Taggart, 2015, p. 7-11).


Seu referencial de mitologia é como uma coleção de textos de determinada época, enquanto que o mito recebe uma categorização de narrativa sagrada, uma opção bem tradicional. A crítica das fontes primárias foi influenciada diretamente por Margaret Clunies Ross e John McKinnell com seus referenciais estruturalistas e no tocante à conservação dos materiais, enquanto que a crítica interna é obtida de Joseph Harris e John Lindow. O debate sobre a autenticidade das fontes literárias foi influenciado por Anthony Faulkes e Preben Sørensen. O uso da runologia e fontes iconográficas recebeu colaboração de Neil Price e Henrik Willians. Muito atento às questões das mudanças e da diversidade das crenças pré-cristãs, o autor também utilizou as diversas contribuições de Terry Gunnell, Jens Peter Schødjt e Anders Andrén. E ainda, dentro de seu referencial metodológico sobre cognição e memória, empregou as idéias sobre mitologia de Pascal Boyer e Justin Barrett (Taggart, 2015, p. 12-68).

A partir da página 69 inicia a pesquisa temática propriamente dita da tese, primeiramente discutindo as afinidades etimológicas entre armamento e movimento do relâmpago, entre carroça e o deus Thor, entre clima e carroça, trovão e Thor, entre outros. Os estudos toponímicos ajudam também a entender a relação entre o deus celeste e suas afinidades agrárias. Um momento marcante da tese é a análise das conexões de Thor com o trovão e o relâmpago na literatura medieval, além da relação da deidade com os terremotos. A investigação do autor sobre o poema norueguês Haustlöng e a poesia islandesa de Steinunn Refsdóttir é muito boa, apesar de não ser completa e exaustiva, como veremos mais adiante. As menções ao vulcanismo são bem atuais, indo de encontro a recentes pesquisas sobre fenômenos climáticos e registros arqueológicos e sua influência nos mitos e na literatura nórdica antiga (Taggart, 2015, p. 69-112).          

O primeiro momento polêmico do autor é quando rompe com a tradicional visão de Thor enquanto ferreiro cósmico ou divino, especialmente na poesia escáldica, apesar de concordar que o martelo possui conexões simbólicas com a ferraria e ser emblema de vários ferreiros. Aqui o autor critica especialmente Davidson (1965) e Motz (1997), mas concorda com Lindow (1994), quando menciona que o martelo nunca foi usado como força criativa (Taggart, 2015, p. 129-137). Porém, a questão ainda está muito longe de ser esgotada, como atestam vários estudos mais recentes sobre a figura do ferreiro mítico (a exemplo de Wood, 2015, não citado pelo autor). A relação entre martelo, ferraria, mitos e ritos de Thor ainda demandará muitas problemáticas, especialmente quando confrontada com a cultura material nórdica e com perspectivas comparativas da área européia antiga.

Discutindo a relação entre Thor e os objetos mítico-mágicos, Taggart chega a outro ponto polêmico. Questiona a interpretação clássica de Hilda Davidson de que poderiam ter existido ritos a Thor envolvendo o simbolismo do relâmpago, fogo e pilares com pregos, devido ao seu emprego de fontes tardias (especialmente Johannes Schefferus, ver: Davidson, 2004, p. 63-74). Mesmo assim, termina sua longa nota afirmando que a questão é intrigante e motivo para pesquisas futuras (Taggart, 2015, p. 147, nota 507).

A comparação com material folclórico ou posterior à Era Viking volta a ser questionada em outro ponto, referente as denominadas thunderstones (popularmente conhecidas no Brasil por “pedras de raio”). Para o autor, não existem evidências de que no mundo pré-cristão nórdico existiram crenças relacionando os relâmpagos/trovões com a criação de pedras (de origem antrópica, como objetos neolíticos; ou naturais, como fósseis, mas ambos creditados à uma origem celeste), como queriam os pesquisadores Jacob Grimm, Turville-Petre, Jacqueline Simpson e Lotte Motz. Essa associação teria sido criada na Grécia clássica, percorrido o mundo medieval e tornada popular a partir do Renascimento, com a sua primeira citação literária no mundo nórdico, na obra de Olaus Magnus. Posteriormente, tais narrativas transformam-se em crença popular e se disseminam no folclore escandinavo contemporâneo, resgatado por Blinkenberg em 1911 (Taggart, 2015, p. 177-188). Essa postura é complicada por vários motivos. Em primeiro, algumas das fontes largamente citadas pelo autor, como Snorri e o Haustlöng mencionam uma etiologia que se relacionada com o tema na Escandinávia medieval: logo após Thor provocar trovões e relâmpagos, ocorre o choque celeste entre a amoladeira de Hrungnir e o martelo de Thor, originando todas as amoladeiras do mundo (Skáldskaparmál 17, Sturluson, 1998, p. 21-22). O tema da amoladeira (ou pedra de afiar em português; whetstone em inglês; hein em nórdico antigo) foi totalmente omitido por Taggart. Ele não cita dois trabalhos fundamentais: o primeiro (Simpson, 1979), que tratou das conexões do tema entre a literatura anglo-saxã e os ritos nórdicos; Mitchell (1985), que retoma a questão analisando primeiramente as amoladeiras dentro de um contexto ritual e politico no mundo saxônico e nórdico, antes relacionadas a Tyr e depois a Thor. Outro trabalho importante (Mees, 2015), já havia sido disponível parcialmente em paper de evento, bem antes da publicação da tese de Taggart, enfocando amoladeiras da Era Viking com inscrições rúnicas (estas mencionando encantamentos de batalha).

Quanto ao material arqueológico, também é omitido de maiores detalhes. Ele não analisa objetos vinculados às pedras de raios e amoladeiras no mundo nórdico, como os fósseis marinhos, a exemplo dos exemplares de broches de bronze de museus da Suécia e Suécia (confeccionados com fósseis ao centro), com um par de cabras e martelos ao lado. O encontro de objetos líticos pré-históricos em sepulturas da Era Viking (possivelmente tomados como pedras de raio ou objetos associados ao culto de Thor) foram mencionados rapidamente, sem maiores aprofundamentos.

A opinião de que originalmente o mjollnir era um machado (nas interpretações de Turville-Petre, Motz e Davidson) é totalmente questionada por Taggart, assim como a idéia de que as pedras de raio não influenciaram a morfologia deste objeto na literatura medieval. A questão do envolvimento da suástica com o martelo e os mitos de Thor foi tratada superficialmente em uma nota (Taggart, 2015, p. 177-188), seguindo uma tradição de quase setenta anos sem estudos acadêmicos objetivos sobre esse símbolo, ao contrário do que ocorria no Oitocentos. Como em muitos casos, a política influencia o caminho acadêmico.

  Outro grande problema da pesquisa é que apesar do título e da proposta, existe muito pouca atenção aos aspectos rituais envolvendo o culto de Thor e as mitologias celestes, no qual os fenômenos atmosféricos do relâmpago e do trovão se inserem. Apesar de citar o livro de Maths Bertell (2003) a respeito de questões historiográficas envolvendo a deidade (notas 5, 47 e 59), não referencia o mesmo em sua principal questão, as cosmologias relacionadas às divindades européias do trovão (com destaque para Thor, evidentemente). Aliás, o tema da cosmologia vem ocupando grande atenção de arqueólogos e historiadores das religiões no mundo nórdico, como Eldar Heide, Clive Tooley, Catharina Raudvere, Anders Andrén, Lotte Hedeager, entre outros, quase todos omitidos da tese. A Astronomia aparece muito rapidamente quanto trata da identificação da constelação da Ursa Maior, seguindo a equivocada interpretação de Jacob Grimm (Taggart, 2015, p. 77). Seria muito mais proveitoso caso tivesse respaldado sua interpretação no recente trabalho de Thomas Dubois (2014, pp. 184-260), que recorre a uma análise comparativa entre a área nórdica e finlandesa e é uma das melhores reflexões sobre as crenças envolvendo constelações na Escandinávia da Era Viking.  

Para discutir questões climáticas, o autor emprega um pesquisador chamado Markús Einarsson e o panorama climatológico da Islândia moderna (Taggart, 2015, p. 203-204), mas o mais correto seria utilizar pesquisas paleoclimatológicas da Europa Setentrional durante a Alta Idade Média. Lembramos que Taggart criticou o uso de fontes folclóricas para se entender o estudo de mito medievais, mas não acaba fazendo o mesmo com o tema do clima? Afinal, como a sociedade, o clima de uma região em uma perspectiva diacrônica possui permanências e mudanças. Resta ao pesquisador o equilíbrio no momento da análise.

Apesar de seus pequenos problemas, a tese de Declan Taggart é um ótimo referencial para todos os interessados nos estudos nórdicos em geral e em especial, aos pós-graduandos que possuem temas relacionados com a religiosidade medieval. A sua estrutura, aplicação de análise, perspectiva analíticas e uma grande conclusão, dividida em oito tópicos e abrindo para inúmeras possibilidades futuras de investigação, é um excelente convite para leituras e interpretações acadêmicas.



Referências:

ÁNTON, Teodoro Manrique. La literatura nórdica antigua en la obra de Juan Andrés. Rilce 30, 2014, pp. 461-483. Disponível aqui. 

BERTELL, Maths. Tor och den nordiska åskan: Föreställningar kring världsaxen. Stockholm: Universitet Stockholms, 2003. Disponível aqui 

BLINKENBERG, Christian. The thunderweapon in religion and folklore: a study in comparative Archaeology. Cambridge: Cambridge University Press, 1911. Disponível aqui 

DAVIDSON, Hilda. Deuses e mitos do norte da Europa. São Paulo: Madras, 2004 (original de 1964).

DAVIDSON, Hilda. Thor’s Hammer. Folklore 76(1), 1965, pp. 1-15.

DUBOIS, Thomas. Underneath the self-same sky: comparative perspectives on sámi, finnish, and medieval Scandinavia astral lore. In: TANGHERLINI, T. (Ed.). Nordic Mythologies: interpretations, intersections, and Institutions. Berkeley: North Pinehurst Press, 2014, pp. 184-260.

JOHANSON, Kristiina. The changing meaning of thunderbolts. Folklore 42, 2005, pp. 129-174. Disponível aqui 

LANGER, Johnni. Thor. In: LANGER, Johnni (Org.). Dicionário de Mitologia Nórdica: símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015, pp. 496-503.

LANGER, Johnni. Martelo de Thor. In: LANGER, Johnni (Org.). Dicionário de Mitologia Nórdica: símbolos, mitos e ritos. São Paulo: Hedra, 2015, pp. 301-304.

LINDBERG, Anette. The concept of religion in current studies of Scandinavia Pre-christian Religion. Temenos 45(1), 2009, pp. 85-119. Disponível aqui 

LINDOW, John. Thor´s hammarr. Journal of English and Germanic Philology 33(4), 1994, pp. 485-503.

MEES, Bernard. Work Songs and Whetstones: From Sutton Hoo to Straum. Scandinavian Studies 87, 2015, pp. 514-530.

MITCHELL, Stephen A. The whetstone as symbol of authority in Old English and Old Norse. Scandinavian Studies 57, 1985, pp. 1-31. Disponível aqui 

MOTZ, Lotte. The Germanic thunderweapon. Saga-Book 24(5), 1997, pp. 329-350. Disponível aqui 

PERKINS, Richard. Thor the Wind-Raiser and the Eyrarland Image. London: Viking Society for Northern Research, 2001. Disponível aqui 

SIMPSON, Jacqueline. The king´s whetstone. Antiquity 53, 1979, pp. 96-101.

STURLUSON, Snorri. Snorri Sturluson Edda: Skáldskaparmál. Edição em nórdico antigo por Anthony Faulkes (Baseado nos manuscritos Codex Wormianus, AM 242 fol, e Codex Regius, GKS 2367 4°). London: Viking Society for Northern Research, 1998. Disponível aqui 

TAGGART, Declan Ciaran. Understanding diversity in Old Norse religion taking Þórr as a case study. Tese de Doutorado em Língua inglesa, Universidade de Aberdeen, 2015. Disponível aqui 

WOOD, Chris. Air in a got skin: Is there a metalworker in Asgard? Quest 181, 2015, pp. 21-28. Disponível aqui