O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado à ABHR, VIVARIUM e ABREM. Registrado no CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br

sexta-feira, 19 de agosto de 2016

OS DOZE MAIORES EQUÍVOCOS SOBRE OS VIKINGS




OS DOZE MAIORES EQUÍVOCOS SOBRE OS VIKINGS



                                 Prof. Dr. Johnni Langer (UFPB/NEVE)



A Escandinávia Medieval foi representada pela arte durante o Oitocentos de diversas maneiras, especialmente com temas relacionadas ao período viking. Muitas destes conteúdos eram equivocados e aqui tomamos como sinônimo os conceitos de estereótipo, clichê e imagens canônicas – todas representações falseadoras ou fantasiosas do passado, tomadas como verdades históricas pelas mais diversas formas de manifestações artísticas e mídia contemporânea. A lista a seguir não é completa, apenas uma pequena introdução ao tema.





1.  Os vikings foram um povo

Nas fontes medievais o termo viking tem um sentido relacionado a empreitadas marítimas (especialmente para pirataria). Após o século XIX, especialmente por influências da arte romântica, o termo passou a designar todos os habitantes da Escandinávia do período compreendido entre o século VIII ao XI, indistintamente, passando a ser utilizado também no meio acadêmico e na mídia de forma genérica. Apesar deste conceito poder ser aplicado a um modo de vida orientado por práticas culturais durante este período (operações de saque e exploração, por exemplo), seu uso étnico é errôneo: nem todo nórdico era viking, mas todo viking era nórdico. Deste modo, utilizar o termo em contextos sociais como “criança viking”, “mulher viking”, “casa viking”, entre outros exemplos, é totalmente equivocado.

Referência: LANGER, Johnni. Vikings. In: LANGER, Johnni (Org.). Dicionário de Mitologia Nórdica. São Paulo: Hedra, 2015, pp. 546-549.





2. O elmo viking possuía chifres e asas

O mais famoso estereótipo relacionado aos nórdicos foi utilizado primeiramente na Inglaterra dos anos 1830, em ilustrações de traduções de obras suecas. Ele rapidamente se espalhou pelas óperas, artes plásticas e literatura, incentivado pelo referencial romântico e nacionalista do período. Ainda não desapareceu completamente, sendo frequentemente revivido pelos torcedores de futebol, animações infantis ou produções de baixa qualidade do cinema. Um estereótipo mais atual, derivado dos tempos de internet, tenta explicar os “chifres” dos elmos como provindos do próprio medievo, devido ao fato dos ataques nórdicos terem sido realizados em igrejas. Neste caso, o próprio cristianismo teria criado a imagem, associando os nórdicos com o diabo. É um clichê totalmente desprovido de qualquer fundamentação histórica, arqueológica ou iconográfica.

Referência: LANGER, Johnni. The origins of the imaginary Viking. Viking Heritage 4, 2002, Gotland University, pp. 6-9. Disponível aqui.







3.  Os nórdicos bebiam em crânios

Trata-se de um estereótipo pouco conhecido no Brasil, mas que ainda prolifera em muitos filmes, animações, literatura e mídia. Esta imagem equivocada teve início no medievo, onde escritores cristãos misturaram as referências contidas na mitologia e literatura com a sociedade histórica dos nórdicos. Isto é, as citações surgidas em fontes literárias e míticas como a Saga dos Volsungos, foi transferido para as populações reais – algo nunca comprovado pela História, Arqueologia e documentação material. Na segunda temporada da série Vikings, o personagem Rollo bebe num crânio – uma clara perpetuação do velho estereótipo.

Referência: BOYER, Régis. Le mythe viking dans les lettres françaises. Paris: Editions Du Porte-Glaive, 1986, pp. 101.






4.  Os vikings conviveram com o período feudal

Muito popular em filmes clássicos e histórias em quadrinhos (como Príncipe Valente e Hagar), a imagem dos nórdicos atacando castelos ou fortificações de pedra, interagindo com elementos da sociedade feudal ou mesmo duelando com cavaleiros em armaduras completas é um clichê advindo da fantasia literária, misturando períodos e contextos geográficos completamente diversificados, sem relação direta entre si (O feudalismo só penetrou na Europa Setentrional após o século XI).

Referência: HARTY, Kevin. Introduction. In: HARTY, Kevin (Org.). The Vikings on film: essays on depictions of the Nordic Middle Ages. London: McFarland, 2011, pp. 3-8.






5.  Os nórdicos não usavam arco e flechas

A imagem típica dos nórdicos utilizando em combates somente espadas, lanças e machados provém especialmente do cinema norte-americano e obras de popularização. Apesar da arquearia não ser uma das principais técnicas utilizada pelos exércitos nórdicos, ela também ocorria (existem evidências arqueológicas e literárias que comprovam isso). Em algumas produções fílmicas escandinavas, como da Noruega, o arco e flecha são constantes, especialmente em reconstituições do período Viking e em locais com muita neve.

Referência: ALEM, Hiram. Onde estão os arcos? A arquearia na série Vikings. Notícias Asgardianas 10, 2016, pp. 128-136. Disponível aqui  





6.  Os nórdicos eram altos, descomunais e brutos

Uma imagem canônica a respeito dos nórdicos foi desenvolvida por alguns países durante o século XIX, como as representações de que os nórdicos eram brutais, assassinos, violentos, com corpo descomunal e semelhantes a antigos habitantes da pré-história ou “selvagens incivilizados” (vestindo somente peles animais ou tendo comportamento animal). Parte deste estereótipo foi transferido para a ficção moderna, em romances como no livro Angus, o guerreiro ou ilustrações de fantasia medieval, com diversos exageros físicos e comportamentais.

Referência: LANGER, Johnni. Rêver son passé. In: GLOT, Claudine & LE BRIS, Michel (Eds). L`Europe des Vikings. Paris: Éditions Hoëbeke, 2004, pp. 166-169. Disponível aqui







7.  O machado escandinavo era gigantesco e com duas lâminas

Um erro comum em algumas reconstituições artísticas sobre a Era Viking é a inclusão de enormes machados com duas lâminas – denotando um aspecto muito mais descomunal ao guerreiro. Na realidade tanto os machados de mão quanto os de batalha utilizavam somente uma lâmina. Após a chegada das técnicas de batalha do período feudal, posteriormente, foram introduzidos machados duplos (mas com lâminas bem pequenas).

Referência: SHORT, William. Viking weapons and combat techniques. Westholme, 2009, pp. 71-86.






 8.  Os nórdicos utilizavam martelos em batalhas

Outro equívoco surgido pela mistura entre Mito e História. A farta referência nas fontes mitológicas do deus Thor utilizando um martelo, levou diversos artistas (especialmente no cinema e quadrinhos) a representarem os nórdicos utilizando martelos de batalha. Esse tipo de equipamento foi utilizado na Escandinávia, mas após a introdução do feudalismo e das técnicas de batalha da cavalaria pesada. Até o momento, nunca foram encontrados martelos de batalha em sítios da Era Viking ou mesmo anteriores. Um exemplo visual deste estereótipo é a narrativa Lindisfarne (série Vikings/Northlanders, publicado no Brasil pela Vertigo), parte II, página 72, onde um guerreiro nórdico utiliza um martelo de batalha contra os anglo-saxões.

Referência: GRIFFITH, Paddy. The viking art of war. London: Greenhill Books, 1995, pp. 162-181.






9.  Os escandinavos possuíam somente embarcações com escudos e remos

Um erro comum em livros didáticos, filmes e obras de arte é a representação dos nórdicos chegando na América em barcos longos de batalha (o famoso drakkar). Na realidade, para operações em alto mar e transoceânicas, utilizavam-se embarcações denominadas de Knorr, sem remos, escudos laterais e figuras de proa e popa.

ATKINSON, Ian. Los barcos vikingos. Madrid: Akal, 1990, pp. 23-24.





10.  Todo viking era pagão

Apesar de grande parte da Era Viking ter sido composta por religiosidades politeístas anteriores ao cristianismo, se levarmos em conta que as práticas culturais sobreviveram muito mais tempo do que o paganismo público, então podemos afirmar que existiram “vikings” cristãos. Leifr Eiríksson, o descobridor de Vinland nas sagas islandesas, era cristão, bem como Olav Tryggvason, famoso mercenário e pirata antes de se tornar rei.

LONNROTH, Lars. The Vikings in History and Legend. In: The Oxford Illustrated History of the Vikings. Oxford, 1997, pp. 225-249.








11.  As incursões escandinavas medievais chegaram na América do Sul

Um erro histórico criado durante o século XIX foi a de que os nórdicos teriam chegado na América Central e do Sul, especialmente o litoral brasileiro e o Amazonas. Apesar de seu sucesso no imaginário literário, em quadrinhos e até em alguns filmes (Xuxa e o tesouro da cidade perdida), essa teoria não tem atualmente nenhum respaldo historiográfico e arqueológico.

Referência: LANGER, Johnni. Vikings na selva. Revista de História, 2012. Disponível aqui







12.  Os vikings utilizavam balestras (bestas)

Uma imagem que vem sendo popularizada após o filme Arthur (2004), o quadrinho Vinland Saga e a série Vikings, é o das populações germano-escandinavas utilizarem balestras em combates na Alta Idade Média. Apesar do armamento ser conhecido desde a Antiguidade oriental, a exemplo dos romanos ou mesmo do seu uso pelos francos, ele não constitui um equipamento bélico de uso ostensivo na Era Viking. Não existem indícios históricos ou arqueológicos dos nórdicos conhecerem ou utilizarem este tipo de armamento durante os anos 750 a 1.110 d.C. Foi somente no século XIII que os escandinavos utilizaram pela primeira vez balestras em combates.

Referência:

GRIFFITH, Paddy. The viking art of war. London: Greenhill Books, 1995.
LINDHOLM, D. & NICOLLE, D. Medieval Scandinavian armies. Oxford: Osprey, 2003.
SHORT, William.  Viking weapons and combat techniques. Pennsylvania: Westholme, 2009.