O grupo interinstitucional NEVE tem como principal objetivo o estudo e a divulgação da História e cultura da Escandinávia Medieval, em especial da Era Viking, por meio de reuniões, organização de eventos, publicações e divulgações em periódicos e internet. Conta com a colaboração de professores, pós-graduandos e graduandos de diversas universidades brasileiras, além de colaboradores estrangeiros. Filiado ao The Northern Women’s Art Collaborative (Universidade de Brown, EUA) e
à ABHR (Associação Brasileira de História das Religiões). Vinculado ao Programa de Pós Graduação em Ciências das Religiões da Universidade Federal da Paraíba. Registrado no Diretório de Grupos de Pesquisa do CNPQ. Contato: neveufpb@yahoo.com.br


segunda-feira, 25 de dezembro de 2017

O Bode de Natal na Tradição Escandinava

Julbocken, John Bauer (1912)



O Bode de Natal na Tradição Folclórica Escandinava

Pablo Gomes de Miranda

Doutorando em Ciências das Religiões pela UFPB

Membro do NEVE



            Em 2014, na ocasião do II Colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos & I Ciclo de Pesquisas Medievais, o primeiro ocorrido na Universidade Federal da Paraíba – UFPB (o I Colóquio aconteceu na Universidade Fluminense – UFF), apresentei a comunicação “Mito e Xamanismo: a caçada selvagem nas baladas de Helgi Hundingsbani” onde argumentei que a tradição de narrativas míticas onde encontramos conexões com os relatos da Caçada Selvagem na Escandinávia, ela que ocorre sempre em torno do Natal, pode estar associada a elementos de drama nos poemas éddicos e em alguns contos e sagas islandesas.

            Durante a apresentação foram exibidas fotografias do início do século XX de pessoas vestidas com peles de Bodes e cabeças articuladas a fim de imitar o animal durante uma procissão que aconteceria de granja em granja na Noruega (a tradição também foi muito forte na Dinamarca) onde o Bode dançaria e deveria ser bem cuidado pelos anfitriões ou correriam o risco de ter a casa bagunçada por aquele animal. Ainda mais, nas prospecções feitas na Noruega e Suécia, encontramos uma divisão muito clara entre as representações dos Bodes, marcados pela atuação através da figura mascarada, e as representações das Cabras, enquanto máscaras articuladas erguidas sobre um mastro. Ambos deveriam ser recebidos pelas comunidades, que alimentariam o animal e lhe satisfaria. Quanto a rápida menção feita no evento, assim escrevi:

            “O uso de elementos caprinos na Þorleifs þáttur jarlskálds em muito nos lembra as máscaras e disfarces utilizadas nos festejos de Natal comuns a diversas localidades da Escandinávia (entre as variantes das vestimentas estão Julebukk, Julbock, Julget etc) e com registros muito recentes” (MIRANDA, 2014, p. 21).

            Acontece que essa comunicação representou o início de minhas pesquisas para a tese a qual me dedico no momento, de maneira que há uma pesquisa em andamento e o que escrevemos aqui é apenas um apanhado geral e elementos curiosos sobre o tema. Antes de ir adiante, preciso fazer duas observações. Primeiro, o número de costumes relativos ao Natal na Escandinávia é muito grande para abordamos em um post como esse, o folclore é dinâmico, adota novos significados, absorve elementos de diversos contatos com outras culturas e vai se modificando. Muitos folcloristas tentaram pesquisar possíveis origens britânicas ou continentais desses costumes e, apesar da semelhança com alguns elementos folclóricos, como o galês Mari Lwyd (que foi na verdade registrado pela primeira vez somente no século XIX), tais comparações são puramente teoréticas.

            Segundo, apesar de ser quase irresistível traçar paralelos com passagens de fontes bem anteriores ao mundo contemporâneo, irei me abster de fazê-lo, atividade planejada para um artigo cientifico posterior. Estaremos deixando de lado figuras mais conhecidas como a Grýla, popular nas ilhas do Atlântico Norte, e as suas raízes dramáticas presentes em danças como Vikivaki, Kerlingaleikur etc, que revelam uma miríade de personagens como Haa-þóra, Gunnhildur gríðarsterki, Þórhildur, entre outras menções do folclore escandinavos ilhéu em favor de um mosaico de tradições da Escandinávia continental.

            Dessa maneira, podemos localizar as performances de visitas do período natalino entre os escandinavos continentais nas seguintes atividades: O festival de Lucia na Suécia e Noruega, entre os dias doze e treze de dezembro; o Staffansreid, também encontrado na Finlândia entre os dias vinte e cinco e vinte e seis de dezembro; Stjärnspel e Trettondagsspel, no fim de dezembro e início de janeiro respectivamente; e o “bota fora” do Yule por São Canuto, entre sete e treze de janeiro, além do nosso Bode de Natal Julebukk ou Julegeit logo após o natal.

            Como lembra Terry Gunnell (GUNNELL, 1995, p. 95) Quatro dessas manifestações possuem uma carga cristã muito aparente (em sua superfície), com associações a Santa Lúcia (ou Santa Luzia) e São Estefano (Staffan, Stephanus), com o martírio de São Canuto e na encenação da visita dos Três Reis Magos em Stjärnspel e em Trettondagsspel, onde carregam consigo uma estrela. É facilmente apontado, nesses festejos, a influência da cultura medieval continental sobre a Escandinávia sob uma rasa suposição de que costumes cristãos chegaram até as áreas mais urbanizadas da Europa setentrional se opondo, ou, até mesmo, se apropriando de antigas comemorações pagãs dos rincões rurais (uma visão não dificilmente romântica), mas quando se aventura a investigar com um pouco mais de profundidade, depara-se facilmente com algumas curiosidades, a exemplo do festival de Lucia (também Lussi e Lusse) e a imagem da garotinha com uma coroa de velas cantando “Santa Lúcia”!



Figura 1: Isolda Langer com coroa de velas (João Pessoa, 2013), arquivo pessoal da professora Luciana de Campos.

            Entretanto o uso contínuo do nome “Lusse Longa Noite” (Lusse Långnatt) sugere que o festejo esteja associado com o solstício de inverno, fixado no calendário juliano como o dia treze de dezembro por volta do século XIV na Escandinávia. Inclusive a tradição de Lucia na Noruega ocidental (e em alguns lugares da Suécia), como continua Terry Gunnel (1995, pp. 98-99), raramente é apresentada na forma da jovem donzela em branco, mas como uma Troll que visita as granjas na noite de treze de dezembro, acompanhada de um grupo de espíritos malignos (Lussiferd). A velha Troll na Gotlândia Ocidental, Värend e Dalarna, por exemplo, é descrita como coberta por palha, peles de cabra e capa vermelha, com uma aparência que lembra muito o nosso Bode de Natal, mas também o Halm-Staffan do festival de São Estefano.

            É fácil se perder na discussão. Mas o que quero fazer o leitor entender, é que as diferentes tradições folclóricas de festejo natalino na Escandinávia continental possuem camadas complexas de interações culturais muito além de uma oposição entre “tradições cristãs” e “tradições pagãs”. Vamos voltar aos nossos Bodes e Cabras. Quando falamos em Julebukk, estamos nos referindo a uma abundância de representações que podem vir na forma da atuação em disfarce no natal (ligados tanto a máscara quanto ao espírito do animal), mas também a certas figuras de palha feitas à mão, talvez as representações mais famosas hoje.

            O registro mais antigo de menção direta ao Bode de Natal é de um raageit, uma cabeça de Bode em um mastro, na Noruega em 1646, onde o Julebukk é descrito como uma pessoa disfarçada com um cobertor. No século posterior, em 1781, começam a aparecer registros de Bodes e Cabras de Natal se casando e assustando crianças. Um registro de 1750 fala que alguém disfarçado de Bode chegou a quase matar uma mulher de susto.

            O Bode poderia ser interpretado e apresentado de diversas maneiras: 1) coberto com peles e em quatro patas; 2) curvado com o apoio de uma bengala e a cabeça articulada; 3) alguém usando apenas uma máscara, que poderia ser articulada e com dentes de ferro, a fim de fazer barulho quando as peças batessem uma na outra; 4) em pares, o Bode e a Cabra de Natal (Julebukk e Julegeit); etc.

            Outros animais também assumiram, regionalmente, o papel do Bode, ainda que, segundo a prospecção de Christine Eike (2007, p. 72-73) também se chamavam Julebukk: a) pássaros em Troms; b) ursos em Setesdal e em Røldal, que também eram chamados de Drykkjebassan ou Fydlebasser (Ursos Bebedores e Ursos Bêbados); c) Porcos em Oppland; d) Cavalo, em um único registro de uma máscara articulada com mandíbulas que faziam barulho, também em Oppland. Apesar do costume estar sendo retomado com certo vigor hoje, na segunda metade do século XX, o termo Julebukk começou a ser usado de forma geral para encontro de pessoas mascaradas, geralmente festas e bailes. A fabricação manual de máscaras decaiu em razão do surgimento das máscaras de plástico manufaturadas, e a figura do Bode foi sendo cada vez mais trocada pela de Papai Noel.

            Seja como for, como despedida deixamos alguns testemunhos da Suécia do início do século XX, recolhidos em arquivo por Eva Knuts, sobre a atuação do Bode de Natal durante o Natal, sinalizo aqui três situações diferentes a fim de melhor ilustrar a diversidade de situações e maneiras em que o personagem interagia com as pessoas. No primeiro caso o Bode atua no mesmo papel do Papai Noel (contrariando a norma, pois o Bode sempre deve ser agradado com comida ou dinheiro), entregando presentes a uma família rica, sendo o Bode algum serviçal da casa. No segundo caso, um grupo de garotos se juntam para conseguir dinheiro, e a indumentária do Bode é descrita em minúcias. No terceiro caso, o bode anima uma festa entre amigos.  

            “O Julbock nunca veio à minha vizinhança, ao menos não como algo de casa em casa. Mas nas famílias mais abastadas, e especialmente na alta sociedade, não era difícil para um dos homens ou um dos servos se disfarçar como um Bode. Se os chifres do Bode não estivessem disponíveis, eram usados grandes chifres de carneiro no lugar, e as vezes a pele desse animal também. Como regra, havia uma garota ou uma esposa habilidosa que ficava responsável pela roupa. Vestido assim e de quatro, o Bode ia de membro em membro da família, carregado de presentes de Natal, de modo que eles poderiam facilmente se soltar quando sacudidos. Após um monte de barulho e confusão, de pancadas na porta, o Bode vinha até o salão. Era uma boa festa e do tipo que era aproveitada pelos mais jovens e pelos mais velhos”

            “O Natal era o período do Julbocken como nós chamamos. Um grupo de jovens iam de casa em casa, um deles disfarçado de Bode. Curvado ao meio e com uma bengala para lhe ajudar, algum tipo de capa ou coberta deveria ser jogada sobre as suas costas. O disfarce deveria ser finalizado com a cabeça estufada de um Bode com chifres e uma barba cobrindo uma bolsa debaixo do queixo. A pessoa disfarçada andaria por aí com sua bengala e puxaria uma corda para fazer a boca do Bode abrir. Um lenço feito para parecer uma língua seria então puxada para fora e o Bode berraria: - Baaaa, dinheiro na minha barba! E todo o grupo sairia da festa com o dinheiro coletado”.

             “Essas festas acabam sendo muito divertidas. Quando estávamos no auge da dança, alguém aparecia todo vestido e bancava o palhaço. Normalmente alguém aparecia vestido como Julbock, coberto com a pele de Bode e chifres na cabeça. O Bode podia vir também com um pequeno sino amarrado entre as pernas para tornar a coisa mais engraçada e fazer as garotas corarem. O Bode então percorria a sala, empurrando e atropelando as pessoas que encontrava. As pessoas poderiam ainda se disfarçar com trapos e escurecer a face com fuligem” (KNUTS, 2007, pp. 129 – 132).



Figura 2: Julegeit exposto no Fredrikstad Museums. Retirado do site http://arkiv.ostfoldmuseene.no/stikkord/fredrikstad-museum/ visitado em 23 de dezembro de 2017



Figura 3: Foto retrato de 1917 de Julebukk. Retirado do site http://mylittlenorway.com/wp-content/uploads/2008/12/go-julebukk-1917.png visitado em 23 de dezembro de 2017.



Ele não foi antes que ele tivesse alguns dos deliciosos pratos de natal como porco, salsichas, queijos ou bolos, nozes e maçãs”.

Figura 4: Cartão desenhado por Benjamin Dahlerup sob instruções de M. Kramer Petersen, século XX. Retirado do site http://www.kb.dk/da/nb/fag/dafos/Dagligliv.dk/Temaer/Top_eller_bund/Indsigt/Dokumenter/Helte_for_og_nu/index visitado em 23 de dezembro de 2017.



 Figura 5: Reconstituição de um Bode de Natal. Retirado do Blog http://blog.dengamleby.dk/julehistorier/tag/rumlepotte/, visitado em 23 de dezembro de 2017.



Referências:

EIKE, Christine. Masks and Mumming Traditions in Norway: a survey. In: GUNNEL, Terry. Masks and Mumming in the Nordic Area. Uppsala: Kungl. Gustav Adolfs Akademien för svensk folkkultur, 2007, pp. 47-106.

GUNNELL, Terry. The Origins of Drama in Scandinavia. Cambridge: D. S. Brewer, 1995.

KNUTS, Eva. Masks and Mumming Traditions in Sweden: a survey. In: GUNNEL, Terry. Masks and Mumming in the Nordic Area. Uppsala: Kungl. Gustav Adolfs Akademien för svensk folkkultur, 2007, pp. 107-188.

MIRANDA, Pablo Gomes de. Mito e Xamanismo: a caçada selvagem nas baladas de Helgi Hundingsbani. In: Notícias Asgardianas (Nova Série), n. 8, João Pessoa: PB/NEVE, 2014, pp. 19-26.





domingo, 24 de dezembro de 2017

Inscrições abertas para VI CEVE/I Encontro Ibero-americano de Estudos Nórdicos


Estão abertas as inscrições para o VI colóquio de Estudos Vikings e Escandinavos e I Encontro Ibero-americano de Estudos Nórdicos, a ser realizado na UFPB de 2 a 5 de outubro de 2018. Estão previstas conferências internacionais, mesas redondas, minicursos, oficinas e sessões de comunicações. O encerramento contará com atividades de Living History, incluindo reconstituições de lutas nórdicas medievais.
As inscrições para ouvintes e propostas de comunicações são totalmente gratuitas:

https://www.even3.com.br/Viking 


terça-feira, 12 de dezembro de 2017

Novo vídeo do NEVE: LAGERTHA ENTRE O MITO E A HISTÓRIA

https://youtu.be/HlC_aaock8M
 
O canal do NEVE no Youtube está com mais um vídeo, desta vez tratando da personagem Lagertha, da série Vikings. No vídeo são tratadas de suas origens literárias e históricas, com  historiador Leandro Vilar, membro do NEVE.
 
Link para o vídeo: https://youtu.be/HlC_aaock8M
 
 

quarta-feira, 6 de dezembro de 2017

Chamada pa. publicação: Era Viking e Escandinávia Medieval

 
Chamada para publicação – Era Viking e Escandinávia Medieval

Primeiro número da revista Scandia: Journal of Medieval Norse Studies.
A revista Scandia está recebendo artigos, resenhas e traduções para a sua primeira edição até o dia 31 de agosto de 2018, com previsão de publicação em novembro de 2018. As propostas podem envolver estudos nórdicos antigos, Era Viking e Escandinávia Medieval em geral, nas áreas de Mitologia, Religião, História, Literatura ou Arqueologia. Os artigos devem ser escritos em inglês, português, francês, espanhol ou italiano.

Os proponentes devem ter a titulação mínima de mestre e as normas completas se encontram no site da revista:
 
 
 
 

sexta-feira, 24 de novembro de 2017

Conferência: A invenção do Norte - Vikings, Era Viking e vikingmania na historiografia oitocentista



Conferência: A invenção do Norte - Vikings, Era Viking e vikingmania na historiografia oitocentista, com Johnni Langer (UFPB/NEVE).

I Colóquio de História Cultural da Universidade de Pernambuco (UPE), Petrolina, dia 7 de dezembro de 2017, 17:15h - 19:00h

Resumo: A conferência pretende realizar uma análise historiográfica sobre a figura moderna do viking, elaborada essencialmente pela arte romântica ao início do Oitocentos e posteriormente aprimorada pela academia europeia. Após ter sido heroificada pela literatura, a imagem do viking torna-se um tema icônico nas artes plásticas e foi transformada pelas disciplinas da Arqueologia e História em figuras históricas com forte conteúdo nacionalista e aventureiro. Na segunda metade do Oitocentos, foi criado o conceito histórico-arqueológico de Era Viking, que possuía forte conotação imperialista e nacionalista, além de propagar referenciais regionalistas de cultura material nórdica. As elaborações oitocentistas vão constituir a base principal para a vikingmania durante o século XX e XXI e são atualmente analisadas, criticadas, ressignificadas e desconstruídas pelos escandinavistas contemporâneos em diversas situações. Nossa pesquisa é baseada nos referenciais de História Cultural advindos de Peter Burke e Carlo Ginzburg, além de utilizarmos a metodologia do imaginário social de Bronislaw Baczko e Hilário Franco Júnior, bem como os estudos de Andrew Wawn (arte romântica), os referenciais pós-colonialistas de Frederik Svanberg, Maja Hagerman e John Lind e a perspectiva do hibridismo cultural dos escandinavistas Clare Downham e Katherine Clare Cross.

segunda-feira, 20 de novembro de 2017

Curso de Mitologia Nórdica em Florianópolis


Minicurso: Introdução às fontes para o estudo da Mitologia Nórdica. Ministrante: Me. Pablo Gomes de Miranda, doutorando em Ciências das Religiões pela UFPB, membro do NEVE.



3o. Simpósio Sul da ABHR, UFSC, Florianópolis, 20 a 22 de novembro, das 13:00 às 15:30.

Serão sorteados exemplares dos livros "Na trilha dos vikings" e "Fé Nórdica: mito e religião na Escandinávia Medieval" aos inscritos neste curso.

 


Resumo: Através do nosso minicurso buscaremos ofertar uma introdução aos estudos de Mitologia Nórdica, com foco em suas principais fontes medievais, necessárias às investigações no âmbito acadêmico. O objetivo é apresentar ao público as possibilidades de pesquisa, conferindo especial atenção à base oral poética e às produções mitográficas. Abordaremos tais fontes sob uma perspectiva historiográfica, apresentando um quadro de conexões sobre o desenvolvimento dessas fontes na cultura escandinava medieval, bem como os panoramas sócio-políticos que possibilitaram os registros de seu conteúdo até os nossos dias. Conteúdo programático: primeiro dia – apresentação de um quadro geral sobre as fontes da Mitologia Nórdica: Poemas, Sagas, Crônicas e Eddas. Segundo dia – as narrativas dos escaldos nórdicos e da Edda Poética. Terceiro dia – o mito na Edda em Prosa, nas sagas e nas fontes latinas.



quinta-feira, 16 de novembro de 2017

Mistérios de pedra: os labirintos Sámi


Labirinto de Nauvo, Finlândia.


OS LABIRINTOS SÁMI


Victor Hugo Sampaio
Mestrando em Ciências das Religiões pela UFPB
Membro do NEVE



            Os labirintos Sámi são um tipo muito específico de estrutura cuja ocorrência se dá em praticamente toda a área denominada Sápmi. Esse nome é usado para designar toda a região onde os povos Sámi habitaram, abrangendo geograficamente parte dos atuais territórios da Noruega, Rússia, Suécia e Finlândia. Tal região também já foi conhecida por Lapland, algo como “Terra dos Lapões”, outro nome utilizado para se referir ao povo de etnia Sámi.



 

Figura 1: A região chamada Sápmi, onde habitavam vários povos da etnia Sámi. Fonte: https://www.offthemap.travel/wp-content/uploads/2016/12/Sapmi-Lapland-Annotated.png



             Antes de prosseguir abordando a questão dos labirintos, é interessante dizer algumas poucas palavras sobre os povos Sámi. Eles também são chamados de Lapões, apesar do termo ter cunho pejorativo e estar relacionado a um etnocentrismo, consolidado sobretudo por volta do ano de 1673 por Johannes Schefferus, que via os nórdicos como superiores e civilizados. Ao contrário de seus vizinhos nórdicos, os Sámi não eram um povo de origem indo-européia: basicamente, eles seriam povos indígenas que habitavam a área Ártica do norte da Europa, sendo nativos da região. Sobre a questão de sua origem, os Sámi são considerados originários da família fino-úgrica, como os finlandeses e estonianos, embora haja diferenças genéticas entre eles.

            As principais atividades desses povos eram a pesca, a caça de animais  - tanto para alimentação, quanto para extração e comercialização de suas peles -, e principalmente o pastoreio de renas, animal de importância máxima para os Sámi. Eram também adeptos da prática do nomadismo.



 

Figura 2: Família Sámi, mãe com seus dois filhos. Revista National Geographic, v.31, pág. 556.

  

            Partindo para a questão específica dos labirintos, é interessante começar ressaltando alguns aspectos de sua morfologia. Esses labirintos não eram construídos com paredes ou outras estruturas intransponíveis erguidas: eram feitas escavações superficiais no chão e, em seguida, eram depositadas pedras grandes, geralmente arredondadas, em cima das linhas que haviam sido escavadas. Sua forma era relativamente padronizada, seguindo geralmente uma tendência circular ou então com pequenas variações, como por exemplo em formato oval ou em forma de ferradura de cavalo. Se vistos de cima, os labirintos Sámi apresentavam seus contornos em um desenho que lembra muito o cérebro humano representado de maneira bidimensional. Devido a essas particularidades em seu desenho, formato e composição por meio de pedras, por vezes pode ser difícil identificar a ocorrência de um labirinto Sámi genuíno. Inclusive, já que eles são feitos por pedras posicionadas no chão, deve-se tomar cuidado para não tomar certas paisagens naturais por labirintos: por vezes, o arranjo natural e ocasional de pedras em certos locais específicos pode dar a falsa impressão de que se trata de uma modificação intencional por parte do homem.

            Apesar desse tipo de monumento Sámi ser chamado de labirinto, vale a pena ressaltar que ele difere do típico conceito ocidental atribuído a essa palavra. Ao contrário dos exemplos trazidos pela mitologia greco-romana, nos labirintos Sámi não existem falsos caminhos e nem becos sem saída: no lugar disso, possuem uma única entrada, muito bem definida, seguida por vários círculos concêntricos que levam invariavelmente ao centro da construção.



 

Figura 3: Desenho representando a estrutura de um labirinto Sámi. Fonte: OLSEN, Bjornar, Stone labyrinth in Arctic Norway.




             A ocorrência dessas estruturas é observada por todo território Escandinavo, mais precisamente em todas as regiões da área denominada Sápmi, conforme explicado anteriormente. Contudo, as regiões onde mais são encontrados esses labirintos são as dos atuais territórios da Finlândia e Suécia, o que não é de modo algum uma surpresa, visto a forte presença de povos Sámi nessas duas áreas. Contudo, ocorrências menos numerosas são observadas também na Carélia e na Noruega, especialmente em Finnmark, nome dado a uma área Ártica e costal da Noruega que faz fronteira com a Finlândia e a Rússia, e que antes da colonização norueguesa era habitada originalmente pelos Sámi.

            Grande parte desses labirintos são encontrados em regiões litorâneas e costais, ou então próximos a grandes lagos – às vezes até mesmo em pequenas ilhas -, o que levanta a hipótese de que haja uma relação entre eles e a água (Olsen, 1996). Alguns deles são encontrados em áreas florestais e de caça. Há certos critérios que foram empregados para que se descobrisse se esses labirintos eram de fato autoria dos Sámi. Um deles surgiu por meio da observação de que grande parte dessas estruturas são encontradas em áreas conhecidas por serem regiões de pastoreio de renas, uma atividade extremamente típica e caracterizante desses povos. Outro fator extremamente relevante é que frequentemente esses labirintos encontram-se juntos ou muito próximos a sítios de inumação reconhecidamente Sámi, evidenciando não somente a questão da autoria, mas também uma relação entre essas estruturas e ritos funerários (Broadbent & Edvinger, 2007; Broadbent, 2010).


Figura 4: Foto de um labirinto Sámi encontrado na região de Finnmark. Fonte: http://arkitekturguide.uit.no/details.php?image_id=1465&template=big



             É curioso notar que a existência desses labirintos não havia sido relatada até a chegada da Idade Moderna, por mais que estudos e exames arqueológicos apontem que as datas de sua construção propriamente dita encontram-se sempre entre os anos de 1200 a 1700 d.C. Um dos principais divulgadores dos labirintos Sámi foi o norueguês Ernst Manker. Em meio a suas muitas expedições realizadas por volta dos anos de 1943-1956, patrocinado pelo Museu Nórdico de Estocolmo, Manker teve contato e tornou-se familiarizado com uma série de sítios sagrados, principalmente na região montanhosa da Suécia. Ele colhia informações sobre esses monumentos diretamente com moradores locais, e então, muitas das vezes – mas nem sempre -, ia até o suposto local verificar as informações que havia recebido (Broadbent & Edvinger, 2007). Ernst Manker posteriormente reuniu todas essas informações e as publicou, no ano de 1957, em um livro intitulado Lapparnas heliga ställen, ou seja, Sítios sagrados lapões.

            Nos relatos trazidos pelo norueguês, algumas dessas estruturas eram diferentes entre si na questão de morfologia, mas traziam algo em comum: além da predominância do formato circular, todas estavam conectadas com relatos de sacrifícios sendo realizados dentro de seu espaço. Algumas teorias interpretativas que vinculam até hoje a respeito da utilização desses espaços têm sua origem nesses relatos. Muitos pesquisadores creem que os Sámi obviamente atribuíam poderes mágicos e sagrados a esses labirintos, o que os levava então a praticar, nesse espaço, sacrifícios ritualizados. Estes eram uma espécie de oferenda destinada às divindades, que visava trazer, para os Sámi, êxito nas atividades de caça e pesca, o controle da maré e clima favorável; ou então em situações de morte, doença, gravidez e nascimento (Broadbent & Edvinger, 2007).

            Uma teoria interessante a esse respeito da utilização sagrada desses labirintos é a de Bjornar Olsen (1996). Segundo ele, esses labirintos serviriam como metáfora física para um rito de passagem muito específico: o da transição da vida para a morte. Similar a outros ritos de passagem

o momento do morrer também é uma situação em que as fronteiras entre um estado social e outro são rompidas e transformadas. Portanto, quando um membro da comunidade morria, o xamã conduziria esse ritual, entrando sozinho no labirinto –  expressando a separação, tanto simbólica quanto social, entre o indivíduo recém-falecido e sua vida -. Ao adentrar o labirinto, o xamã demarcaria a separação entre o morto e sua vida/função social. A cerimônia, então, terminaria com o xamã saindo do labirinto e manifestando essa incorporação, agora plena, do indivíduo falecido nesse outro estado, que seria o da morte.

            Pode-se indagar por quê necessariamente a estrutura de um labirinto para a prática desse ritual. Não poderia qualquer estrutura cumprir essa função? A religiosidade Sámi, forte e essencialmente xamânica (Abercromby, 1898; Rydving, 1993), concebia a passagem para a morte como uma jornada estreita, tortuosa, difícil e longa, que deveria ser percorrida pelo falecido. Por isso a representação dessa jornada em formato de um labirinto concêntrico, caminhado por um xamã: enquanto alguém que conhece esse caminho, já o percorreu diversas vezes e voltou, ele seria uma figura auxiliar e porta-voz do falecido, ajudando-o a cumprir essa transição. Desse modo, somente o xamã pode incorporar a alma do indivíduo morto e transportá-la para sua nova moradia (Olsen, 1996).

            Conforme pôde-se observar, os labirintos Sámi ainda despertam controvérsias e muitas incertezas ainda giram ao seu redor. Afinal, são monumentos tão curiosos quanto enigmáticos, e seus significados ainda estão por ser desvendados. Inclusive, o número de estudos e menções a esses labirintos no meio acadêmico, até mesmo no exterior, são ainda tímidos.





Referências

  
ABERCROMBY, John. The Pre- and Proto-Historic Finns. Londres: Strand, 1898.

BROADBENT, Noel. Lapps and Labyrinths: Saami Prehistory, Colonization and Cultural Resilience. Washington: Smithsonian Institution Scholarly Press, 2010.

BROADBENT, Noel; EDVINGER, Britta. Acta Borealia: A Nordic Journal of Circumpolar Societies, 23:1, p. 24-55, 2007.


RYDVING, Hakan. The End of Drum-Time: Religious Change Among the Lule Saami, 1670S-1740S. Historia Religionum, n.12, 1993.


OLSEN, Bjornar. Stone Labyrinth in Arctic Norway. Caerdroia, n.27, p. 24-27, 1996.

sábado, 11 de novembro de 2017

Call for papers: Viking Age and Medieval Scandinavia

http://periodicos.ufpb.br/index.php/scandia/index
 

Call for papers: Viking Age and Medieval Scandinavia

 
For the first edition of Scandia Journal, we welcome articles, reviews and translations concerning Old Norse Studies, Viking Age and Medieval Scandinavia focusing in Mythology, Religion, History, Literature or Archaeology. The deadline for submissions is 31 August 2018 (publication expected by November 2018) and must be written in English, Portuguese, French, Spanish or Italian.

Appel à publication – Âge des Vikings et la Scandinavie Médiévale

http://periodicos.ufpb.br/index.php/scandia/index
 
Appel à publication – Âge des Vikings et la Scandinavie Médiévale
 
Premier numéro de Scandia: Journal of Medieval Norse Studies. Le revue Scandia reçoit des articles, recensions et traductions pour sa première édition jusqu'au 31 août 2018, et devrait être publié en novembre 2018. Les propositions peuvent inclure des études nordiques anciens, l'Âge Viking et la Scandinavie médiévale en général, dans le domaines de la mythologie, de la religion, de l'histoire, de la littérature et de l'archéologie. Les articles doivent être rédigés en anglais, portugais, français, espagnol ou italien. 

sexta-feira, 10 de novembro de 2017

Curso: Introdução às fontes para o estudo da Mitologia Nórdica, Florianópolis



Minicurso: Introdução às fontes para o estudo da Mitologia Nórdica. Ministrante: Me. Pablo Gomes de Miranda, doutorando em Ciências das Religiões pela UFPB, membro do NEVE.
3o. Simpósio Sul da ABHR, UFSC, Florianópolis, 20 a 22 de novembro, das 13:00 às 15:30.

Serão sorteados exemplares dos livros "Na trilha dos vikings" e "Fé Nórdica: mito e religião na Escandinávia Medieval" aos inscritos neste curso.

Resumo: Através do nosso minicurso buscaremos ofertar uma introdução aos estudos de Mitologia Nórdica, com foco em suas principais fontes medievais, necessárias às investigações no âmbito acadêmico. O objetivo é apresentar ao público as possibilidades de pesquisa, conferindo especial atenção à base oral poética e às produções mitográficas. Abordaremos tais fontes sob uma perspectiva historiográfica, apresentando um quadro de conexões sobre o desenvolvimento dessas fontes na cultura escandinava medieval, bem como os panoramas sócio-políticos que possibilitaram os registros de seu conteúdo até os nossos dias. Conteúdo programático: primeiro dia – apresentação de um quadro geral sobre as fontes da Mitologia Nórdica: Poemas, Sagas, Crônicas e Eddas. Segundo dia – as narrativas dos escaldos nórdicos e da Edda Poética. Terceiro dia – o mito na Edda em Prosa, nas sagas e nas fontes latinas.






quarta-feira, 8 de novembro de 2017

Neve analisa o novo filme Thor Ragnarok



RESENHA DE THOR: RAGNAROK





Leandro Vilar
Doutorando em ciências das Religiões pela UFPB
Membro do NEVE

            Após enfrentar a ameaça do Destruidor em Thor (2011), salvar a cidade de Nova York de uma invasão alienígena em Os Vingadores (2012), impedir que uma das Joias do Infinito caísse nas mãos do sombrio Malekith em Thor: O Mundo Sombrio (2013), e evitar que Ultron destruísse a humanidade em Os Vingadores: A Era de Ultron (2015), o fim do mundo ocasionado pela profecia do Ragnarök, seria a maior ameaça que o deus do trovão Thor estaria para enfrentar, ou pelo menos era o esperado pelos leitores de quadrinhos, fãs dos filmes e a crítica cinematográfica, já que o Ragnarök, antigo mito nórdico diz respeito a um tempo de guerras e cataclismos que destruiria o mundo conhecido.


            Entretanto, o terceiro longa-metragem do deus nórdico do trovão da Marvel Comics chega aos cinemas de forma bem diferente. Ao invés de se esperar por um filme sério, sombrio e tenso, pois abordaria catástrofes, guerras, morte e sofrimento, nos primeiro trailer de Thor Ragnarok (2017), nos deparamos com um trailer frenético, que misturava cenas de luta, perseguição, a aparição da deusa Hela, a qual destrói o Mjöllnir, a queda de Thor em Sakaar, mais cenas de ação apresentando os demais personagens até culminar na luta de Thor e Hulk. Tudo isso embalado pela música Immigrant Song do Led Zeppelin, primeira composição baseada em temática viking e mitológica nórdica de uma grande banda de rock, a se tornar popular em 1970.


A primeira vista poderíamos dizer que ação e lutas estavam presentes no filme, porém, onde estavam as criaturas mitológicas que marcam o Ragnarök? Apesar de que Surtur, Fenrir e Jormungand aparecerem em trailers posteriores, ainda assim, havia certo receio quanto ao que esperar do Ragnarök. Nos trailers posteriores começou a ficar cada vez mais visível que o filme teria um tom leve, aventuroso e engraçado. Uma jornada espacial de queda e ascensão do herói, bem inspirado no conceito de jornada do herói de Joseph Campbell. Apesar de tal aspecto ser interessante, pois mostrou um Thor debilitado pela falta de seu martelo, desacreditado pelos outros e por si mesmo, essa jornada do herói não foi bem aquilo que se esperaria de alguém que estava para evitar o fim de seu mundo.
O terceiro longa-metragem do deus do trovão chega aos cinemas como um thriller animado, extravagante, marcado com cenas de ação, luta, perseguição de naves, mas recheado por doses de piada, as vezes bem excessivas. O Ragnarök nunca foi tão divertido. Enquanto nos filmes anteriores havia uma dúvida da Marvel em definir o tom dos filmes do Thor, se seriam filmes de ação, mitologia e ficção científica, sérios e menos cômicos, pois o personagem nos quadrinhos apesar de ser simpático, nobre, educado, nunca foi sarcástico e irônico como o Tony Stark, ou o Peter Parker, ou o Stephen Strange, mas em Thor Ragnarok, o protagonista definitivamente abraçou de vez toda a irreverência do Universo Cinematográfico da Marvel (UCM). E essa mudança derradeira foi apresentada a partir de várias referências dos quadrinhos.


A primeira advém do visual. O planeta Sakaar que é pouco conhecido dos não leitores de quadrinhos, o qual consiste num planeta ferro-velho, tornou-se o cenário para homenagear o quadrinista, roteirista, desenhista e editor Jacob Kurtzberg (1917-1994), mas conhecido pelo nome artístico de Jack Kirby, um dos grandes nomes da Marvel Comics, que inclusive ao lado de Stan Lee e Larry Lieber criaram o Poderoso Thor em 1962. 


Em homenagem ao centenário de Jack Kibry, Thor Ragnarok visualmente lhe prestou várias homenagens a começar pelo logotipo do título (ver imagem 1), que lembra os logotipos de marcas e filmes dos anos 70 e 80, além do visual colorido e extravagante do Grão-Mestre (Jeff Goldblum), e de sua residência, um enorme arranha-céu que exibe as cabeças de seus campeões como o Hulk, o Bill Raio-Beta e o deus Ares, e no interior os ambientes são bem coloridos e extravagantes. É preciso lembrar que Kirby o qual foi o desenhista de várias edições das hqs do Poderoso Thor, seus traços eram bem exagerados concedendo uma forte presença de elementos futuristas nas construções, objetos e trajes dos personagens. Algo que notamos neste filme, especialmente na arquitetura de Sakaar e nos trajes de seus habitantes.

Inclusive esse visual colorido e futurista, somado ao tom cômico do filme, levou alguns a compararem com os filmes dos Guardiões da Galáxia, lançados em 2014 e 2017, os quais introduziram no UCM essa equipe pouco conhecida fora dos quadrinhos, embora que a formação da equipe no cinema seja uma das várias versões que aparecem nas hqs. De qualquer forma os Guardiões da Galáxia tornaram-se filmes de ficção científica espaciais bem cômicos, embora que nos quadrinhos necessariamente essa equipe fosse tão engraçada. Ainda assim, essas comparações sugeridas por fãs possui fundamento. Possivelmente haja de fato influência destes filmes com a terceira aventura de Thor, que apresenta um tom bem parecido.


            Outras influências que estão presentes no filme advêm de algumas histórias em quadrinhos, como Planeta Hulk (2006), na qual apresenta o gigante verde bem falante, racional e que acabou sendo escravizado, tornando-se um gladiador em outro planeta (ver imagem 2). O plot essa história foi adaptado para o filme, inclusive é um dos pontos altos da trama como sugerido nos trailers e entrevistas com os atores. Ver os dois Vingadores se digladiando no Torneio dos Campeões (Contest of Champions). Campeonato esse que também advém de outra hq, O Torneio dos Campeões (1982), história na qual o Grão-Mestre desafia a Morte, num torneio que reúne alguns dos mais poderosos lutadores do universo. Evidentemente que o torneio nos quadrinhos tem uma escala bem mais colossal da qual aparece no filme.



Imagem 1: arte conceitual do embate entre Thor e Hulk. Tal conflito foi baseado nas hqs Planeta Hulk e O Torneio dos Campeões.





            A presença de outros personagens no filme como o Doutor Estranho (Benedict Cumberbatch) e o Executor (Karl Urban) são também referências a estes personagens que aparecem em distintas histórias do Thor. No caso Doutor Estranho, personagem apresentado no UCM em 2016, já havia apresentado nas cenas pós-crédito uma ligação com os acontecimentos de Thor Ragnarok, entretanto, a presença do Mago Supremo neste filme tornou-se uma forma do personagem ser relembrado, mas também foi pretexto para momentos engraçados. Basicamente o Doutor Estranho fez apenas uma participação especial, a qual se fosse retirada não teria feito falta.


            Quanto ao Executor, cujo nome verdadeiro é Skurge, consiste em um dos vilões que já apareceu várias vezes nas histórias do Poderoso Thor, inclusive fazendo parceria com a feiticeira Encantor, para destruir o deus do trovão. No caso, o Executor é um vilão carrancudo, bastante forte, petulante e agressivo. Porém, no filme temos uma versão menos bruta e mais leve. Algo que descaracterizou o papel desse personagem, que inclusive no filme nem se comporta como um vilão.


 Além dessas referências advindas da arte de Jack Kirby, das hqs Planeta Hulk, O Torneio dos Campeões, e a presença de personagens como Doutor Estranho e o Executor, o filme também se baseou nas histórias em quadrinhos que abordam o Ragnarök. Neste caso vejamos o que consistiu este mito, para depois comentar como tais histórias foram adaptadas pela Marvel para suas revistas, para depois comentar como ficou essa adaptação no cinema.


            Ragnarök é uma palavra que possui distintas traduções, apesar de normalmente ser traduzida como "crepúsculo dos deuses", hoje em dia os estudiosos preferem traduzir como "julgamento dos deuses", "destino dos deuses", "consumação dos poderes antigos" etc. Neste caso o mito do Ragnarök é narrado em duas fontes medievais, cujos manuscritos mais antigos conhecidos datam do século XIII, os quais tratam-se da Edda Poética e da Edda em Prosa. Nestes códices redigidos na Islândia, são apresentadas as profecias que prenunciam essa época de guerra e catástrofe, assim como, também narram os principais eventos dessa guerra e o que ocorrerá depois. Assim, o Ragnarök não é o "fim do mundo" literalmente, mas é a destruição do velho mundo e o surgimento de um novo. Podemos dizer que se trata de um período de renovação e restauração.


            Com isso, as Eddas narram distintas profecias que envolvem longos invernos, guerras, fome, fratricídios, o assassinato de Balder, a prisão de Loki, sua vingança, a morte dos deuses Sól e Mani, devorados pelos lobos Skoll e Hati, a fuga de Fenrir de sua prisão, a saída da serpente gigante Jormungand das profundezas do mar; a morte de alguns deuses como Odin, Thor, Freyr e Heimdall; a marcha dos gigantes, a destruição causada pelo fogo de Surt etc. Esses são alguns acontecimentos que marcam o conflito que ocorre durante o Ragnarök. Entretanto não se pode esperar que essa mesma história fosse contada pela Marvel. A editora e seus autores fizeram suas próprias versões. No caso, nos quadrinhos existem duas versões do Ragnarök.


            A primeira versão foi publicada entre as edições 272 e 278 da revista O Poderoso Thor, no ano de 1978, escrita por Roy Thomas e desenhada por John Buscema e Tom Palmer (ver imagem 3). Das três versões produzidas pela Marvel Comics, essa do final da década de 1970 é a mais próxima dos acontecimentos dos mitos, por trazer o maior número de elementos que são narrados na mitologia nórdica a respeito do Ragnarök. Mas evidentemente que adaptados para o século XX e o contexto sci-fi do quadrinho. Nesta versão, o Ragnarök é iniciado por Loki, e conta com o apoio do gigante de fogo Surtur e da deusa dos mortos Hela.


Imagem 2: Capa da revista The Mighty Thor #274 (1978). Nessa edição é contada a morte de Balder, um dos fatores para o início do Ragnarök.



A segunda versão foi publicada em seis volumes no ano de 2004, intitulada Thor Ragnarok, escrita por Michael Avon Oeming e Daniel Berman, desenhado por Andrea Divito e colorido por Laura Villari (ver imagem 4). Com traços menos extravagantes e design atualizado para o século XXI, mas sem descaracterizar o visual clássico dos personagens. Nessa nova versão sobre o mito nórdico, os autores da revista trazem elementos mitológicos para contar a origem do martelo Mjöllnir e outros acontecimentos passados até chegarem ao Ragnarök em si. Enquanto a versão de 1978 mantinha um cenário de ficção científica típico daquela fase, a versão de 2006 traz um cenário mais próximo de épicos de fantasia. Nesta segunda versão apesar de Loki, Surtur e Hela serem os principais vilões, existe algo a mais por traz de tudo isso, fato este que concede uma originalidade a trama.





Imagem 3: capa de Thor Ragnarok, vol. 6 (2004)





Apresentada as duas versões do Ragnarök da Marvel, chegamos à terceira, a qual foi apresentada em formato de filme. A trama como salientado anteriormente, consiste numa adaptação própria, inclusive de todas as três é a que menos traz referências aos mitos. Ao invés de Loki e Surtur serem os principais vilões, no filme, a deusa dos mortos Hela (Cate Blanchett) torna-se a grande ameaça para Thor e o povo de Asgard. Ameaça essa tamanha ao ponto de Hela destruir o Mjöllnir como visto nos trailers. Apesar de que nos quadrinhos o Mjöllnir já foi destruído várias vezes, mas nunca antes por Hela. Tal condição foi usada no filme como mecanismo para mostrar o quão poderosa era essa vilã. Algo que realmente deu certo, pois Hela de fato é uma oponente formidável, embora que ela tenha destruído o Mjöllnir facilmente.


Mas além de destruir a poderosa arma de Thor e bani-lo acidentalmente para Sakaar, a furiosa deusa que estava aprisionada não se sabe onde, pois o filme não informa isso, surge em busca de vingança (ver imagem 5). Seu objetivo é destruir Asgard e conquistar os Nove Reinos. Todavia, o Ragnarök não diz respeito apenas à vingança de Hela, mas também a profecia na qual o gigante de fogo Surtur irá destruir Asgard. Com isso, unindo-se estes dois poderosos inimigos, Thor se ver em graves apuros.




Imagem 4: O visual de Cate Blanchett como Hela, manteve-se fiel ao dos quadrinhos.



Evidentemente que o deus do trovão neste terceiro filme é bastante testado, ao ponto de ter seus poderes questionados e seu martelo destruído. Desprovido de sua arma, desacreditado e ferido psicologicamente, Thor vai parar em Sakaar, onde é capturado pela Valquíria, conhecida na região como Catadora 142 (Tessa Thompson), sendo vendido como escravo de luta, para combater o Hulk, no Torneio dos Campeões do Grão-Mestre. Enquanto boa parte da trama se desenrola em Sakaar, onde Thor tenta escapar para impedir Hela, a outra parte da narrativa se passa em Asgard, onde Hela massacra o exército asgardiano, e convoca seu exército de mortos e o lobo gigante Fenrir. Heimdall que se tornou um rebelde tenta salvar seu povo da morte.

Nota-se por tais características como o Ragnarök do filme se difere das hqs. O deus Balder, o Bravo que aparece em algumas histórias em quadrinhos, o qual está relacionado com a profecia ragnoriakana, está ausente no filme, nem se quer ele existe no UCM. Hela que é filha de Loki nos mitos e nas hqs, ganha uma nova origem no filme, mudança essa importante para entender sua vingança e o seu passado. Surtur que é o senhor de Muspellheim tem seu passado pouco revelado. Jormungand a grande serpente marinha que várias vezes confrontou Thor nos quadrinhos, no filme tornou-se um dragão irrelevante. Fenrir, o qual nos mitos e nas hqs é outro dos filhos de Loki, tornou-se apenas um monstro sob comando de Hela.

Outras mudanças também são visíveis nesta terceira versão, mas além dessas diferenças quanto ao material dos quadrinhos e mitológico, o próprio tom do filme também se tornou mais leve e engraçado. As duas versões em quadrinhos apresentam um Ragnarök mais sério e pautado na ação. Inclusive a versão de 2004 é mais sombria do que a versão de 1978. Todavia, o filme tornou-se uma narrativa espacial de ação e comédia. Um Ragnarök que apesar de gerar preocupação a Thor, Heimdall e os asgardianos, acabou por perder sua imponência e temeridade para a irreverência da trama.

No entanto, não foi apenas o Filho de Odin que ganhou esse lado cômico, os demais personagens como Loki, Valquíria, Executor o próprio Hulk ganharam tons mais hilariantes. Loki nos quadrinhos é um personagem sonso, cínico, sarcástico, maquiavélico e debochado. Embora tais características ainda foram perceptíveis nos filme de Thor (2011) e em Os Vingadores (2012), em Thor Ragnarok (2017), Loki deixa de lado sua vilania para se tornar um anti-herói sonso e engraçado. Porém, as maiores mudanças foram visíveis com a Valquíria, o Executor e o Hulk. Comentamos anteriormente como o Executor deixou de ser um vilão para se tornar um coadjuvante descaracterizado de sua essência, o mesmo se deu com a Valquíria.


Uma das polêmicas iniciais foi a mudança de cor da personagem, que nos quadrinhos é branca e loura dos olhos azuis, para ser interpretada no filme por Tessa Thompson, uma atriz negra (ver imagem 6). Apesar de ter havido reclamações nas redes sociais e em sites de entretenimento por parte dos fãs, a Marvel não voltou atrás a respeito da escala da atriz. Porém, além dessa mudança de visual, o próprio caráter da personagem foi drasticamente alterado. Enquanto nas hqs ela é descrita como uma mulher forte, audaz, nobre e honrada, tornou-se no filme uma personagem ressentida pelas mágoas passadas, a qual para tentar esquecer sua tragédia, largou-se ao vício da bebida. A ideia de uma Valquíria alcoólatra poderia ter fornecido certa carga de dramaticidade à trama, mas pelo contrário, o fato da Valquíria tornar-se uma caçadora de escravos para lutar na arena do Grão-Mestre, uma briguenta e alcoólatra foram fatores para fazê-la ser mais um alívio cômico do filme.




Imagem 5 - No filme a Valquíria além de visual alterado, teve sua personalidade mudada também.


E no caso do Hulk isso foi uma grande surpresa, já que o personagem nos quadrinhos e animações é conhecido por ser uma pessoa de poucas palavras, apresentando-se revoltado, raivoso ou triste. No filme o Gigante Esmeralda ganha ares mais leves e até engraçados. Ele fala bastante, mas boa parte de suas falas possui um teor irônico ou cômico. O Hulk torna-se um brutamonte ingênuo e pateta. Inclusive essa característica engraçada é vista também com o Bruce Banner, o qual não costuma ser um personagem engraçado nas hqs, desenhos e filmes.

Não obstante, o fato de Loki, Hulk e Valquíria terem se tornado personagens engraçados em Thor Ragnarok é ainda mais reforçado pela paródia que eles fazem com os Vingadores (Avengers), quando Thor sugere chamar sua equipe de os Vingativos (Revengers) (ver imagem 7). Inclusive os Vingativos existem nos quadrinhos, mas assumindo várias formações diferentes, porém, a formação no filme é inédita. E apesar da luta dos quatro contra Hela e seu exército de mortos, ser uma das grandes cenas de ação, como sugerida antecipadamente nos trailers, ainda assim, o viés cômico do quarteto não deixa de ser percebido durante a viagem deles para Asgard.





Imagem 6: Neste cartaz do filme, vemos os Vingativos sobre a ponte Bifrost, diante da ameaça da deusa Hela. Nota-se pelo colorido do cartaz a influência da arte de Jack Kirby.



            Por outro lado, a formação dos Vingativos pôs de lado a velha equipe de Thor presente nos quadrinhos, a qual é formada pelos guerreiros Fandral, Hogun, Volstagg, Lady Sif e Balder. Neste caso, nos dois filmes anteriores, com exceção de Balder que não aparece os demais estão presentes. Porém, neste terceiro filme, Lady Sif está ausente, enquanto Fandral, Hogun e Volstagg fizeram apenas participações especiais. Neste ponto, outra mudança também deve ser mencionada. Com a ausência de Lady Sif (Jaime Alexander) do terceiro filme, além da personagem ser desfalque da antiga equipe do Thor, sua presença como potencial romântico também está ausente. Inclusive isso é algo que foi posto de lado. Enquanto nos dois filmes anteriores se tentou formar um triângulo amoroso entre Thor, Sif e Jane Foster (Nathalie Portman), em Thor Ragnarok a ideia foi abandonada. Nenhuma das personagens aparece, e o protagonista não tem preocupação em protegê-las o dividir seu tempo com as mesmas.


Entretanto, não foram todos os personagens do filme que ganharam personalidade mais animada ou foram excluídos da trama. Odin (Anthony Hopkins) apresenta-se bem sério como de costume. Heimdall (Idris Elba) também manteve sua seriedade, inclusive ele aparece descaracterizado neste filme, tendo abandonado a armadura futurista e com capacete com cornos, para usar uma roupa de fugitivo, além de estrelar algumas cenas de combate. Embora que no mito Heimdall seja o responsável por alertar Asgard acerca do início do Ragnarök, no filme, isso não ocorre.


Em consideração final, as mudanças de visual e de tom do filme vem dividindo a opinião dos fãs e dos críticos. Para os fãs mais tradicionais do personagem, embora as homenagens a Jack Kirby sejam válidas, no entanto, o tom cômico do filme foi um grande problema, ainda maior pelo fato de abordar o Ragnarök, acontecimento dramático de forma simples e pouco preocupante. Todavia, para alguns fãs ou admiradores dos filmes, o tom cômico tornou a produção divertida de ser assistida.


No caso dos críticos a divisão de opinião também é similar. A fórmula Marvel de fazer filmes engraçados de heróis, para alguns é bem aceita, pois produções como Os Vingadores (2012), Homem de Ferro 3 (2013) e Os Vingadores: A Era de Ultron (2015) conseguiram arrecadar mais de 1 bilhão de dólares, apesar de serem filmes de super-herói com altas doses de ação e comicidade. Entretanto para alguns críticos ela já se mostra saturada. As últimas produções lançadas este ano como Guardiões da Galáxia 2 e Homem-Aranha: De Volta ao Lar.